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General Fernando Azevedo e Silva, ministro da Defesa do Brasil

A confusão da base militar americana no Brasil

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 José Antônio Severo

O presidente da República botou cisco no ventilador quando declarou à rede de televisão SBT que iria convidar os norte-americanos para instalar uma base militar no País. Tudo isto no meio de um contexto de aumento da tensão com a Venezuela, país vizinho e fronteiriço. O assunto seria grave, se fosse verdadeiro. Uma base militar de uma superpotência no Atlântico Sul, dependendo de seu armamento e do efetivo seria um fator de desequilíbrio, que poderia afetar a geopolítica mundial. Segundo os tratados em vigor, a América do Sul é território livre de armamento nuclear e distante das áreas de conflito provável. Por exemplo: numa guerra atômica, em tese nenhum artefato explodiria por aqui. Já está tudo desmentido.

Por isto, a base norte-americana do presidente Jair Bolsonaro virou aquilo que, nas redações de antanho, os jornalistas chamavam de anti-notícia. A matéria que não existe porque não há fatos, mas todo o mundo fala como se tivesse acontecido. O presidente falou, mas a base militar não vai sair porque nem os Estados Unidos nem o Brasil estão querendo ou pensando nisso. Então o que houve?

Falando sobre o assunto ao jornal Valor Econômico, o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, embora carioca respondeu mineiramente, nem que sim nem que não, muito antes pelo contrário. Já a colunista Eliane Cantanhede, de O Estado de S. Paulo, especula que o presidente confundiu a Base Espacial de Alcântara com uma instalação militar. De fato, a base do Maranhão é para uso civil, comercial e cientifico, mas sua locação a clientes estrangeiros (na verdade a restrição era só para americanos) foi colocado num pacote de segurança nacional pela bancada governista de esquerda no Congresso, exigindo salvaguardas para seu uso por forasteiros. Com isto, os fregueses alienígenas foram subir seus foguetes em Cabo Canaveral e Guiana Francesa. Outros continuaram usando bases russas e chinesas. Inclusive o Brasil.

Certamente os dois estão certos. O general porque o assunto não foi sequer ventilado. Foi pego de surpresa. A jornalista Eliane porque a conclusão é procedente: Bolsonaro é um oficial da antiga, oriundo da Infantaria, que se confundiu ao, chegando à presidência, encontrar os três grandes programas de ponta das Forças Armadas. Na Marinha o motor para o submarino atômico (chamemos assim), no Exército a “guerra cibernética”, e na Aeronáutica a Defesa Espacial. Ora, chegando ao terceiro andar do Palácio do Planalto, Bolsonaro encontrou sobre a mesa a proposta dos americanos para lançar seus foguetes civis de Alcântara, pois é muito mais barato. Concluiu: míssil é arma, portanto, vamos montar a base com os gringos. E aí se estabeleceu a confusão. É a única explicação plausível. Bem que o repórter da rede de Sílvio Santos poderia ter ido um pouco mais fundo para saber direitinho, tintim-por-tintim que raios de base seria essa!

Na verdade, o Brasil nunca teve uma base militar estrangeira no estrito sento do tema. Na Segunda Guerra Mundial havia tropas, navios e aviões dos Estados Unidos baseados no Brasil, mas o País era teatro de operações e os norte-americanos estavam aqui como país aliado, operando em conjunto com as forças armadas brasileiras. Na área de influência das bases navais e aéreas instaladas no Brasil, com navios e aviões brasileiros e americanos, foram afundados 11 submarinos do Eixo, nove alemães e três italianos. Morreram em combate mais marinheiros brasileiros na Guerra do que soltados na Itália. Sem falar que nas forças de terra foram representadas, no front europeu, pela FEB do Exército e pelo Grupo de Caça da FAB.

Nas operações navais foi em que se concentrou o grande esforço militar brasileiro nesse conflito, magnificamente narrado no romance histórico “A Bordo do Contratorpedeiro Barbacena”, do então vice-almirante João Carlos Gonçalves Caminha, editado pela Catau em 1994. Portanto, não era uma base de contenção, mas uma ação combinada entre dois países beligerantes.

Hoje o susto é a Venezuela. Esse país comprou armamentos modernos da Rússia, e isto pode assustar. O novo ministro do Exterior já apontou os “inimigos”, Venezuela e Cuba. No entanto, não se deve esperar hostilidades armadas na América do Sul. Todos os países estão sem caixa para fazer uma guerra. Além disso, estes armamentos existem, mas não se pode afirmar que 10% deles estejam em condições de operar. Faltam peças, não há recursos para manutenção, seu emprego é caríssimo. A função dessas armas é manter os operadores adestrados, em condições de, aí sim, num conflito de proporções, serem rapidamente adequados.

Foi isto que acorreu com a Marinha na Segunda Guerra. O Brasil só tinha navios antiquados, porém dispunha de tripulações com muito conhecimento de mar. Sair das velhas banheiras de Primeira Guerra para os poderosos Destroieres foi quase que só pular de um convés para o outro. É o que narra o livro do almirante Caminha.

Não há perigo iminente. O medo seria de o Brasil virar alvo desses novos mísseis invisíveis que o presidente Vladimir Putin exibiu dia desses na Rússia. E aqui entre nós, mesmo que os presidentes de Cuba, Nicarágua e Venezuela estejam agastados com a nova situação brasileira, as diferenças vão se indispor nos fóruns internacionais, como a OEA, a Unasul ou onde mais for.

Blog Edgar Lisboa/ José Antônio Severo