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A Maldição das Pontes do Guaíba: quem constrói não inaugura

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José Antônio Severo

Ironias da vida dos poderosos: A promessa da campanha de reeleição da então candidata Dilma Rousseff à população da Metade Sul do Estado e da cidade em que vive, a Segunda Ponte sobre o Rio Guaíba, será inaugurada por seu arquirrival, o presidente Jair Bolsonaro. Não bastasse ser o algoz das esquerdas então comandadas pela ex-presidente. No seu tempo de parlamentar, o capitão não destinou nem um centavo de suas emendas parlamentares para o complexo rodoviário gaúcho. Mas será ele a cortar a fita simbólica.

Essa ponte tem uma espécie de maldição, neste sentido. Foi a grande promessa de campanha do ex-prefeito de Porto Alegre, Ildo Meneghetti, então candidato da Frente Democrática (PL/PSD/UDN) que venceu uma eleição impossível. O situacionismo do PTB, que tinha no Palácio Piratini um primo-irmão do presidente Getúlio Vargas, então no poder no ocaso de seu fatídico terceiro mandato, general Ernesto Dornelles (mineiro de nascimento), foi derrotado, mesmo tendo como candidato ao governo o lendário senador Alberto Pasqualini e como líder de sua campanha o emergente Leonel Brizola. Qual nada

A oposição entrou com um candidato improvável: natural de Canela, ex-presidente do Internacional do “Rolo Compressor, que falava como se tivesse uma batata na boca, o ex-prefeito da Capital ganhou no voto das estrelas do getulismo. Uma de suas promessas de campanha era tirar a Metade Sul do isolamento rodoviário, substituindo as antigas barcas do Guaíba por uma ponte. Naquele tempo, duvidavam que fosse possível tamanha obra. Pois a ponte aí está até hoje.

Entretanto, Maneghetti não pode inaugurar a sua obra histórica. Mal deu par concluir o último aterro, entrou em serviço e já acabou seu governo. Nos primeiros dias como governador do Estado, em 1958, Brizola reinaugurou e mudou a denominação da ponte, de Regis Bittencourt para Travessia Getúlio Vargas.

Desta feita, embora a “dona” da obra, esteja em desgraça, o nome de batismo não ser a de um desafeto, mas do engenheiro agrônomo João Carlos Paixão Cortes, intelectual e figura emblemática do Rio Grande do Sul. Mas a fita inaugural, quem vai cortar é o capitão Bolsonaro. De sua praia da Tristeza, na Vila Assunção, Dilma Rousseff só verá, de longe, o foguetório.

A indicação para o nome do folclorista Paixão Cortes, falecido no ano passado, já está em andamento legal, no Senado Federal. Projeto de lei neste sentido foi apresentado pelo senador Luís Carlos Heinze (PP/RS). O parlamentar argumenta que o homenageado é uma figura expressiva da História do Rio Grande do Sul.

Paixão já é a imagem emblemática do gaúcho, imortalizada na estátua do Laçador na entrada norte de Porto Alegre. Agora fecha, com “sua” ponte na entrada Sul, que abre caminho para os campos da pampa, que ele tanto cultuou.

Paixão foi o criador do Movimento Tradicionalista Gaúcho, em 1947, no Grêmio Estudantil do Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre, como resistência da juventude estudantil à invasão cultural norte-americana no pós-guerra.  Neste alvorecer do tradicionalismo, impulsionado pela juventude estudantil, úmidos presidentes do “Julinho”, como era então chamado o grêmio estudantil, foi o ex-prefeito de Caçapava Alcides Saldanha (depois deputado federal, senador e ministro dos Transportes do governo Fernando Henrique Cardoso).

O movimento tradicionalista teve sucesso e, atualmente, possui mais de quatro milhões de seguidores, organizados em torno de Centros de Tradições Gaúchas, os CTGs, entidades de fins culturais e festivas. Atualmente são espalhados não só pelo Rio Grande do Sul, mas também pelo Brasil e no Exterior, incluindo América do Norte, Europa e Ásia, destacando-se um deles em Osaka, no Japão, criado por nisseis do oeste do Paraná, zona de migração e de influência cultural gaúcha

A Segunda Ponte do Guaíba, que completa a Travessia Getúlio Vargas, lançada e quase concluída pela ex-presidente Dilma, teve suas obras paralisadas em 2015 quando estava em 55% do total, devido à crise. Em 2017, no governo Michel Temer, com recursos da ordem de R$ 100 milhões, de uma emenda da bancada gaúcha coordenada pelo senador Lasier Martins, os trabalhos foram retomados. Em 2018, com outra dotação de R$ 240 milhões, os trabalhos recomeçaram, mas não foi concluída.

Agora será terminada em 2019, devendo ser inaugurada até o final deste ano. Com 7,3 km de obras de arte sobre o Saco da Alemôa, num remanso o rio Guaíba, essa travessia dá acesso à rodovia do Mercosul, que liga Porto Alegre a Montevidéu e Buenos Aires. No seu primeiro mandato, Dilma presentou os gaúchos com a rodovia BR 386 na orla do rio Jacuí, em direção ao interior, uma reivindicação antiga dos habitantes da região metropolitana da capital gaúcha. Agora completa-se com a duplicação da travessia do Guaíba.

A primeira foi construída por Meneghetti e inaugurada por Brizola, seu arqui-adversário; agora Bolsonaro inaugura a obra da Dilma.  A maldição da ponte.

Blog Edgar Lisboa com Jornal do Pampa (Caçapava do Sul)