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A nova imprensa popular

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A circulação dos jornais brasileiros alcançou, no ano passado, uma tiragem média de 7.230.285 exemplares, o que representou crescimento da ordem de 6,5% sobre 2005. Atrelada à economia, a venda de jornais segue o errático desempenho do nosso PIB, que, nas últimas décadas, oscila entre performances ruins ou medíocres. Esse resultado positivo – numa área extremamente sensível da informação, já que os veículos impressos vêm sofrendo pesada concorrência dos meios de informação em tempo real – decorreu, basicamente, da arrancada impressionante dos jornais populares.

De acordo com o Instituto Verificador de Circulação (IVC), os jornais populares avançaram muito enquanto as publicações tradicionais apresentaram baixos índices de crescimento. Cinco dos dez jornais de maior circulação no Brasil são voltados para um público de menor renda. O mais bem sucedido deles, o Extra/RJ, com tiragem média de 267 mil exemplares, ocupa o terceiro posto na classificação geral. Duas dessas publicações foram constituídas muito recentemente: Super Notícia/MG(2002) e Meia Hora/RJ(2006).

O avanço dos jornais dirigidos às classes B2, C e D começou a partir de Plano Real, que trouxe estabilização da moeda e ganho real de poder aquisitivo para os mais pobres. As empresas jornalísticas voltaram-se, então, para um novo consumidor que, com menos tempo disponível e com menos dinheiro, queria um jornal mais fácil de ser lido.

É curioso que o veículo que se tornou um ícone do jornalismo popular no Brasil, Notícias Populares, não tenha tido fôlego para acompanhar seus sucessores nessa trajetória de sucesso. Publicado desde 1963, Notícias Populares parou de circular em 2001. Dizia-se dele – pelas suas manchetes sobre violência – que vertia sangue, se torcido.

Na atual retomada, os jornais populares continuam carregando nas capas chamativas, mas se livraram da linguagem pornográfica e das matérias fantasiosas. De todo modo, ainda usam e abusam de formas narrativas consagradas na literatura de suspense quando se trata descrever crimes.

Com capas chamativas – de fotos abertas e manchetes em letras garrafais -, esses jornais fazem de tudo para chamar a atenção de seus leitores. Ao contrário dos veículos tradicionais, que têm o respaldo de assinantes fiéis, os populares são basicamente vendidos em banca. Seus editores, como se diz no jargão das redações, têm de matar um leão por dia.

Entre os estudiosos do assunto, há quem destaque a grande semelhança entre esses novos jornais, com suas matérias resumidas e fotos ampliadas, com os noticiários de televisão, calcados em notas curtas e imagens assombrosas.

É claro que os populares ainda mantêm um namoro com o grotesco, com os fatos que fogem à normalidade, mas uma de suas novas tendências é a prestação de serviços. Numa época de crise econômica, é preciso mostrar saídas para o leitor. Assim, ganham espaço notas sobre oportunidades de emprego ou a respeito de medidas que ajudem na economia doméstica.

Há quem ache que esses jornais – embora tendo um público domiciliado na periferia – reproduzem quase sempre a visão preconceituosa da elite. Exemplo disso é o fato de se referirem depreciativamente aos bairros mais violentos das nossas metrópoles: cenário preferencial das nossas cotidianas catástrofes. É importante ressaltar, ainda, que uma das características mais marcantes dos populares jornais é circulação apenas em uma cidade.

Uma pergunta que cabe, agora, quando se desenha um possível crescimento acima de 4% na economia brasileira, é: qual será o desempenho dos jornais populares? Continuarão eles aumentando sua fatia na circulação? Em que proporção?

Pessoalmente, acredito que sim, os jornais populares ampliarão seu espaço. Existem condições concretas para esse avanço. Hoje, esses veículos vendem bem em umas poucas capitais, como Rio de Janeiro, Porto Alegre e Belo Horizonte. Penso que, necessariamente, vão crescer em outras cidades.

Outro fator que me leva a acreditar numa expansão desses jornais é o aumento da escolaridade dos brasileiros. O inegável esforço do governo para colocar mais jovens nas escolas – ainda que não seja acompanhado por uma busca de maior qualidade – poderá ter forte influência, a médio prazo, na expansão do número de leitores.

Num país com pouca tradição de leitura com o Brasil, a disseminação de jornais populares deveria ser saudada com queimas de fogos. Nos países europeus, que domaram o analfabetismo há muito tempo, é corriqueira a imagem de operários lendo um jornal no metrô. Felizmente, isso começa a se repetir aqui, em especial no Rio de Janeiro.

Como sei que umas das condições primordiais para o acesso à cidadania é a informação, penso que os jornais populares têm força para auxiliar na integração daquela parcela da nossa população que, de há muito, está alijada da vida nacional.

Por fim, acredito que, se conseguir reduzir a distância entre ricos e pobre, o Brasil poderá passar por uma verdadeira explosão no índice de leitura de jornais. Mas devemos aguardar por isso com um certo otimismo cauteloso. Afinal, é da tradição brasileira postergar indefinidamente a solução dos nossos muitos e graves problemas sócio-econômicos.

Edgar Lisboa é jornalista