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Quem paga a bolsa-lanterninha?

A última sessão de cinema

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Em entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, o cineasta gaúcho Jorge Furtado deixou no ar uma pergunta inquietante: em que país, em que ano, será realizada a última sessão numa sala às escuras, com ruído de mandíbulas triturando pipocas e dezenas de pessoas sentadas em silêncio? Mesmo que não ocorra jamais, essa é uma fascinante hipótese que ganha corpo a medida que cai o público de cinema.

A maior parte da entrevista girou em torno do controvertido sistema de financiamento do cinema brasileiro. Como se sabe, os filmes brasileiros só chegam às telas mediante recursos obtidos por “renúncia fiscal” – sinuosa expressão que poderia ser trocada uma outra mais popular: “dinheiro da viúva”, ou seja, o seu, o meu, o nosso.

Segundo o autor do nosso melhor curta, o clássico “Ilha das Flores”, atualmente, no Brasil, estão sendo investidos cerca de 300 milhões de reais para a produção de filmes que serão vistos por estimados cinco ou seis milhões de espectadores. Em bom português, o país está gastando o equivalente a 50 reais para cada cidadão que irá assistir a uma dessas fitas nacionais. De certo modo, pode-se afirmar, com base nesses números, que estamos diante de um programa oficial que mereceria ser chamado de bolsa-lanterninha. Que, é preciso reconhecer, tem um ponto altamente positivo: não rende votos.

Por que o brasileiro não curte o cinema nacional? Elegante, Furtado fez uma breve referência a certos filmes apelativos ou pornográficos produzidos por aqui em décadas passadas. Poderia ter dito mais. Poderia ter dito que muitas dessas obras apelativas ou delirantes pareciam ter como objetivo único botar a correr das salas de projeção os nossos desarvorados cidadãos.

Por causa delas, ainda hoje, não é difícil numa roda de conversa encontrar pessoas que não assistem, nem amarradas, a filmes nacionais. Diretores que se achavam geniais, com uma câmera na mão e nenhuma idéia no quengo, fizeram mais contra o cinema brasileiro do que o poderoso lobby de Hollywood.

Jorge Furtado comemora que, hoje, o financiamento público da indústria cinematográfica nacional é feito através de concursos públicos, como os da Petrobrás e BNDES. Ocorre, no entanto, que os critérios para escolher os beneficiados – como em tudo que ocorre no Brasil – são nebulosos. O currículo do cineasta, por exemplo, influi muito. Só isso justifica que diretores que filmaram obras relevantes nos anos 60 e 70 – mas que hoje só apresentam filmes que são vistos por meia dúzia de gatos pingados – fiquem com grande parte dos investimentos.

Em defesa da existência de um cinema nacional financiado com recursos públicos, Jorge Furtado alegou que um povo precisa se ver na tela. Embora gasta, é uma frase verdadeira. É importante que os brasileiros assistam filmes sem precisar ler legendas, identificando-se com os tipos ali apresentados. A questão que fica é saber se os nossos cineastas conseguem colocar nas telas o tal homem brasileiro.

O que se constata indo ao cinema é que muitos dos nossos realizadores têm compulsão pela estética da miséria. Fora da fome, da marginalidade e da ignorância não há filmes. Assim, são poucas produções brasileiras que retratam, por exemplo, a classe média. Que, aliás, é a que mais vai ao cinema, que custa em média dez reais. Jorge Furtado é a exceção brilhante.

A arrecadação dos filmes brasileiros cai ano a ano. De “Dona Flor e seus Dois Maridos”, que teve mais de dez milhões de espectadores, chegamos agora a uns poucos filmes que mal conseguem ultrapassar a barreira dos cem mil ingressos.

De acordo com Furtado, nos últimos anos, cada vez são mais numerosos os motivos para que as pessoas não saiam para ir ao cinema. Há os DVDs, que podem ser alugados ou comprados em qualquer mesa de bar (até mesmo antes do lançamento). Ao alto custo dos ingressos, some-se o trânsito caótico e o medo pânico que acomete qualquer brasileiro que se veja na iminência de deixar sua casa à noite.

Em meio a esse confuso panorama, não resta dúvida que é mais interessante especularmos sobre a data em que será realizada a derradeira sessão de cinema. Essa é uma indagação que me comove. Como todos os que hoje têm mais de 50 anos passei os domingos de minha infância de menino pobre em cinemas lotados (com direito a troca de gibis com os amigos na entrada). E, nos últimos anos, tenho visto as salas de exibição minguarem e serem confinadas em shoppings sofisticados onde só entram os poucos filhos dos que têm carro para deixar nas garagens que custam três reais a hora. É isso aí. Comecemos a contagem regressiva.

Edgar Lisboa é jornalista