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Moeda real - Foto: Reprodução

Aos 26 anos, o real enfrenta mais um desafio, com pandemia, recessão e endividamento

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Quem nasceu depois do lançamento do real, em 1º de julho de 1994, ou mesmo próximo a essa data, dificilmente pode imaginar o que era viver em um país com taxas de inflação estratosféricas. Só para se ter ideia, no dia 29 de dezembro de 1992, quando Itamar Franco assumiu interinamente a Presidência da República, depois da renúncia de Fernando Collor, a inflação alcançava nada menos que 1.119% no acumulado em 12 meses.

— Não há flagelo maior para uma economia do que a inflação. Sou do tempo em que ela alcançava 80% ao mês. O preço era um pela manhã, outro à tarde e à noite outro diferente, para o mesmo produto. Não havia planejamento que funcionasse, nem investimento — lembra o senador Antonio Anastasia (PSD-MG), que foi governador do seu estado por duas vezes e secretário de planejamento.

O país estava com sua economia em frangalhos e experimentava a hiperinflação. Depois de atravessar vários planos econômicos heterodoxos, como o Cruzado I e II, em 1986; o Bresser, no ano seguinte; o Verão, em 1988/1989 e o Collor I e II, em 1990 e 1991, o brasileiro resistia em confiar na sua moeda, o cruzeiro real, a última antes do real.

Em março de 1990, quando foi anunciado o plano econômico mais drástico de todo esse período, que confiscou grande parte da poupança nacional, a inflação anualizada batia em 6.390,52%. No mês seguinte, alcançou o recorde da história brasileira, com 6.821,32% no acumulado em 12 meses. Os planos envolveram, de modo geral, congelamento de preços. Alguns instituíram cortes de zeros e moedas novas, mas não restringiram a impressão de dinheiro, o que continuava estimulando o consumo, que, por sua vez, realimentava a inflação.

Esse cenário desolador só mudou com o Plano Real, que esquivou-se das correções automáticas de preços e salários, desindexando a economia. Passados 26 anos desde o início da circulação da nova moeda — precedido pelo mecanismo saneador da Unidade Real de Valor (URV), que corrigiu os valores sem embutir a inflação passada — poucos têm em conta o significado da chamada memória inflacionária.

Porém, com o país, a exemplo de boa parte do mundo, atolado nas crises sanitária e econômica, muitos brasileiros se perguntam se essa conquista histórica estaria ameaçada, como ocorreu em três grandes crises mundiais: a do México (1995), a Asiática (1997-1998) e a da Rússia (1998), episódios em que as moedas dos países menos desenvolvidos (os “mercados emergentes”), e com economia não plenamente estabilizada, sofreram forte especulação por meio da fuga ou ameaça de fuga em massa de capitais. Aumentar os juros foi a saída então para reter os investidores por meio de remuneração atraente, o que elevou o endividamento público, provocou retração econômica e desemprego. No ano seguinte à quebra da Rússia, o Brasil faria uma guinada no modelo de controle inflacionário.

Para Anastasia, o ressurgimento da inflação, um dos temores no ar, seria “o pior dos males”. Por isso mesmo “deve ser combatido à exaustão”. Já o economista e professor Edmar Bacha, um dos formuladores do Plano Real, avalia que não há ameaça à estabilização monetária no curto e no médio prazo. Em entrevista à Agência Senado, ele explicou que o país está mergulhado numa forte recessão, e por isso não há pressão sobre consumo e aumentos de preços. As taxas de desemprego são elevadas e a economia possui grande capacidade ociosa. Bacha lembra que o real tem sofrido forte desvalorização perante o dólar, mas ainda assim a inflação está baixa.

O que se discute atualmente, segundo o economista, é até quando o Banco Central (BC) vai ter que manter baixa a taxa de juros. E se haverá necessidade de rever a atual política de metas de inflação. Adotado em 1999 no Brasil, esse sistema estabelece que a inflação, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), deve ficar dentro de uma faixa de tolerância estabelecida pelo governo anualmente. Serve para mostrar ao mercado que o BC não vai deixar a inflação escapar ao controle. Desde 2005, o chamado centro da meta se mantém em 4,5% ao ano.

Essa política de metas de inflação foi instituída pela primeira vez em 1990 pelo banco central neozelandês. No Brasil, mostrou sua eficácia para afastar qualquer receio de retorno da hiperinflação.

No entender do diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI), Felipe Salto, o Plano Real afastou, em definitivo, esse risco. Depois de mais de duas décadas de existência da nova moeda, e com o regime de metas, o economista acha que dificilmente o país voltará a viver um processo agressivo de desconfiança na moeda nacional, que gera medo e aumentos descontrolados de preços.

Senador Alvaro Dias (Podemos-PR) concede entevista. Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Na avaliação do senador Alvaro Dias (Podemos-PR), o governo vai precisar ser “muito incompetente” para permitir a volta da inflação, diante da atual retração do consumo. Ele diz que no momento é preciso se preocupar com a retomada da economia, a geração de empregos, reformar o sistema financeiro e dar prioridade para segmentos nos quais o país possui vocação natural, como agricultura e biotecnologia.

O Congresso, recomenda o senador, deveria recuperar a agenda de reformas estruturais, como a tributária e a administrativa, e melhorar o ambiente para os negócios.

— O Brasil já não estava bem antes da pandemia. A crise sanitária só fez tudo piorar. O que o governo esperava economizar com a reforma da Previdência em dez anos, a pandemia consumirá este ano — avalia Alvaro Dias.

Fragilidades

De fato, a pandemia surpreendeu o país numa situação de fragilidade fiscal e desemprego elevado. O governo pouco avançava, depois da reforma da Previdência, para reduzir o endividamento e cumprir o teto de gastos públicos. Com a crise sanitária, não houve mais espaço para qualquer ajuste fiscal. As despesas aumentaram e a recessão se agravou.

A economia, conforme a última projeção da IFI, pode cair 6,5% este ano, dentro de uma previsão otimista, semelhante à do Banco Central. O mesmo relatório diz que a queda do Produto Interno Bruto (PIB), em um cenário pessimista, pode superar 10% em 2020, com aumento do desemprego e do déficit público. Outro indicador importante aponta que a dívida bruta pode atingir 96,1% do PIB no atual exercício e romper a marca dos 100% em 2022.

Para o senador Rodrigo Cunha (PSDB-AL), o Brasil vive um momento crítico, em que “uma pandemia gravíssima se junta a uma crise econômica, que caminha para ser de grande profundidade, e uma crise política que não pode ser desprezada”. Em recente debate promovido pelo senador na internet, o economista José Roberto Afonso, considerado um dos formuladores da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), disse que o Brasil foi o único, entre as maiores economias do mundo, a desenvolver uma dicotomia entre saúde e economia, acarretando grandes custos à sociedade. O país já é o segundo com o maior número de mortos pela covid-19 nesse triste ranking internacional, só atrás dos Estados Unidos.

O ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore avalia igualmente que a recessão econômica no Brasil poderá ser mais demorada. Em seminário realizado pela IFI no final de maio, Pastore disse que o Brasil reagiu mal à pandemia, hesitando em adotar o afastamento social e deixando de coordenar o “lockdown” (confinamento). Essa administração desordenada da crise sanitária atrasará, na visão dele, a recuperação da economia brasileira.

Conforme o consultor do Senado Allan Coelho Duarte, “crédito não vai resolver o problema, apenas agravá-lo”, uma vez que a economia está fechada.

— Se essa dívida for cara, os empresários, que não estão faturando quase nada, ficarão em uma péssima situação no futuro. Se for barata ou de graça, o subsídio terá de vir de algum lugar, ou seja, toda a população irá pagar no futuro — entende o economista, que, no entanto, vê o socorro aos empresários como um remédio para um “estrago que já foi feito”. E que deveria se restringir a micro, pequenas e médias empresas, desde que aliado a redução de impostos, no corpo de uma nova estrutura tributária, implementação de outras reformas liberalizantes (administrativa e trabalhista, por exemplo), além de um novo sistema de controle monetário (ver artigo).

A oferta de empréstimos foi exatamente o que fez o Banco Central no dia 23, ao anunciar outro rol de medidas para ampliar a oferta de crédito em resposta à pandemia. As torneiras estão sendo abertas agora exclusivamente a micro, pequenas e médias empresas, num total de aproximadamente R$ 210 bilhões. O conjunto de alternativas anterior pôde ser aproveitado somente pelas grandes empresas. As demais ficaram retidas nos filtros de análise de risco e garantias por parte das instituições financeiras, gerando enorme insatisfação.

Affonso Celso Pastore e Edmar Bacha (fotos: Marcos Oliveira/Agência Senado e Roque de Sá/Agência Senado)
Pós-pandemia

Por enquanto, as opiniões dos economistas e dos senadores entrevistados convergem. O momento exige o aumento de gastos públicos. Os recursos têm que ser direcionados para atender as camadas mais vulneráveis da população (como é o caso do programa de auxílio emergencial), amparar as micro, pequenas e médias empresas que ainda não quebraram e ajudar as finanças estaduais e municipais. Isso tudo sem mencionar as despesas para enfrentar a pior crise sanitária desde a gripe espanhola, em 1918.

O que se questiona é o cenário pós-pandemia. O senador Antonio Anastasia defende que, tão logo seja superado este delicado momento da crise sanitária, o país deve voltar ao rumo anterior da austeridade fiscal:

— Precisaremos restringir as despesas públicas, estabelecer prioridades, criar ambiente favorável aos investimentos internacionais, principalmente para financiar infraestrutura, gerar empregos e receitas tributárias. Para tanto, não podemos ter inflação nem governo perdulário.

Com posição semelhante à de Alvaro Dias, o senador mineiro também defende que o Congresso, responsável pela aprovação, na PEC do Orçamento de Guerra, de regras que facilitam a compra de títulos públicos e privados pelo BC, deve retomar a agenda das grandes reformas. Além da tributária, Anastasia mencionou com especial ênfase a administrativa. Nessa linha, a Câmara dos Deputados já voltou a debater a proposta de mudança nos tributos do país, com a previsão de votar a reforma no segundo semestre deste ano.

Austeridade 

senador Tasso Jereissati (PSDB-CE).
Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

O senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) também se inclui entre os que defendem a retomada da agenda de austeridade fiscal e das reformas estruturais. Mas, durante o debate da IFI, lamentou o “afrouxamento” do discurso de disciplina fiscal, forte no início da atual legislatura, após a aprovação da reforma da Previdência.

Sem a coordenação do governo no Congresso, observa o senador, os sinais ficaram confusos. Ele mesmo admite não ter compreendido o rumo traçado pelo Executivo. A mentalidade predominante no Parlamento, por outro lado, é fazer “pseudobondades”, como o teto para juros de cartão de crédito, medida simpática para o público, embora potencialmente desastrosa, na visão de Tasso.

Defensor da austeridade fiscal, Pastore alertou que não há espaço para mais gastos públicos no período pós-pandemia. E mostrou grande preocupação com o aumento da saída de capitais estrangeiros. O diretor-executivo da IFI ressalta que o risco para o real está exatamente aí: associado às contas externas e fiscais. (Ver entrevista)

Teoria Moderna

Em meio a esse já árduo debate, alternativas heterodoxas populares nos Estados Unidos, especialmente junto a integrantes do Partido Democrata, chegaram ao Brasil. O economista André Lara Resende, outro dos formuladores do Plano Real, é o principal defensor de medidas flexíveis na linha do que propõe a intitulada “Teoria Monetária Moderna” (TMM).

Em contraposição ao discurso de retorno à austeridade fiscal, Lara Resende recomenda que seja suspensa a proibição de o Banco Central emitir moeda para financiar o Tesouro, como já foi feito no passado. Assim o governo poderia financiar gastos públicos em um momento difícil, como o atual, de crise sanitária e econômica, sem ter que aumentar a dívida pública e provocar inflação.

A chamada “TMM” é bem mais complexa e sugere que “o excesso de dinheiro em circulação na economia” possa ser enxugado por meio de tributação. Para Edmar Bacha, nos Estados Unidos, com tradição secular de moeda forte e juros próximos de zero, o risco de emissão para financiar gastos públicos é mínimo. No Brasil, segundo ele, a história já comprovou que experiências heterodoxas, como a TMM, não dão certo.

Senador Rodrigo Cunha (PSDB-AL). Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Na opinião do senador Rodrigo Cunha, apesar do apelo de medidas muito elásticas, como a monetização da dívida, não se vislumbram perigos à estabilidade da moeda:

— Em relação ao retorno da inflação, este não me parece ser um fantasma com o que deveríamos perder nosso sono. Penso que temos mecanismos de política econômica suficientes para não voltarmos ao tempo em que a inflação era algo alarmante.

O parlamentar prefere que neste momento o Congresso centre seus esforços em ampliar a ajuda emergencial de R$ 600, valor definido pelos parlamentares, aos mais necessitados e garantir crédito às empresas:

— O que me parece consensual é que, como estamos atravessando um momento completamente atípico, soluções extraordinárias terão de ser debatidas. Não devemos descartar a emissão de moeda, nem qualquer outro instrumento para enfrentar esta crise. Este é um momento em que o pensamento fiscalista e as soluções econômicas tradicionais devem ser repensadas.

O senador baseia suas recomendações no fato de que a pandemia, ao obrigar a população ao isolamento social, provoca um impacto fortíssimo na economia. Embora isso também ocorra no resto do mundo, no Brasil a crise se prolonga devido às desigualdades sociais e regionais.

— Por aqui a situação tende a ser mais dramática e duradoura — assinala Rodrigo Cunha.

Antonio Anastasia concorda com essa avaliação:

— Acho que haverá o empobrecimento generalizado e nós vamos de fato sofrer muito, com índice alto de desemprego, empresas com dificuldades, algumas quebrando.

Entrevista

Brasil precisa retomar a agenda da produtividade, com investimentos em infraestrutura e educação, diz diretor da IFI

Para Felipe Salto, diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI), reequilibrar a dívida pública é fundamental, mas não é condição suficiente para o país voltar a crescer

Felipe Salto, diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (foto: Pedro França/Agência Senado)

Agência Senado – Diante da urgência de socorro a agentes econômicos em dificuldade, por causa da covid-19 e da necessidade de recuperação da economia brasileira no pós-pandemia, alternativas como a emissão de moeda para o financiamento do Estado ganharam a simpatia de alguns especialistas. Esse tipo de medida, que encontra espaço na chamada Teoria Monetária Moderna, é criticado por levar ao aumento de gastos públicos e desorganizar a economia. O grande defensor dessa medida no Brasil é o economista André Lara Resende, um dos pais do Plano Real. O senhor acha que o Brasil tem condições de desenvolver uma política monetária com tais ingredientes?

Felipe Salto – Não. O Brasil não é a Alemanha nem o Japão. Nós temos poupança baixa, dívida alta, crescimento econômico medíocre e juros baixos, agora, mas de maneira conjuntural, temporária. Se o balanço de pagamentos voltar a pressionar o câmbio, com saída de capitais, a alta do dólar vai impor pressões sobre a inflação, e os juros teriam de voltar a subir. Estamos longe de um quadro de juros zero. E, no nosso caso, como o risco soberano [a avaliação sobre a capacidade de pagamento do país] ainda é significativo, o juro zero não é, literalmente, 0%, mas algo próximo do patamar que a taxa Selic já alcançou, de 2,25% ou um pouco menos.

No cenário pós-pandemia, mesmo com a grave recessão econômica, há algum risco de retorno da inflação?

O risco para o real está associado às contas externas e fiscais. Se o país não fizer a lição de casa e não retomar uma agenda de austeridade fiscal, o que significa cortar gastos e/ou aumentar receitas, pode haver saída de capitais, depreciação cambial [desvalorização da moeda brasileira], aumento dos preços dos produtos importados, incluindo bens finais e componentes para produção doméstica, com efeitos sobre a inflação. Mas esse quadro não seria de descontrole inflacionário. O Brasil seria pego com juros historicamente baixos e poderia voltar a aumentá-los para fazer frente a esse processo. Obviamente, cresceríamos menos, mas a moeda teria seu valor preservado e os riscos inflacionários seriam, provavelmente, debelados.

O senhor tem dito que o Plano Real afastou em definitivo o risco de uma hiperinflação. Por quê?

A hiperinflação foi resultado de um processo de inércia, que se tentou corrigir, diversas vezes, com programas econômicos que quase sempre envolviam congelamento de preços. A ideia é que o congelamento combinado com a troca da moeda devolveria a confiança no dinheiro, permitindo que os preços médios da economia ficassem estabilizados. Ocorre que isso produzia um desincentivo à produção, criando crises de abastecimento, o que acabava por esvaziar as prateleiras dos supermercados e do comércio em geral. A solução trazida pelo Plano Real foi inovadora. Manteve-se o cruzeiro real como moeda oficial, mas criou-se uma moeda “virtual”, a Unidade Real de Valor (URV), que passaria a conviver com o cruzeiro real, sendo garantida a sua paridade com o dólar. Essa garantia da equivalência com o dólar, enquanto o cruzeiro real valia bem menos do que a moeda americana, dava força à URV. A tendência [esperada] era que as pessoas passassem naturalmente a operar na nova moeda, o que de fato aconteceu. Até que, em julho de 1994, [o Brasil] passou a imprimir a nova moeda, o Real, no lugar da URV, substituindo-se em definitivo o cruzeiro real. Esse processo encerrou um período dramático da vida nacional. A confiança na moeda retornou e a economia se reorganizou em novas bases monetárias, com expectativas controladas e sem aquela apreensão a respeito do reajuste contínuo dos preços dos bens, serviços e contratos. Todos passaram a acreditar que a moeda era estável, tinha valor, e, portanto, a inflação decorrente daquele processo inercial desapareceu. Obviamente, tivemos períodos, no pós-1994, com inflação mais ou menos pressionada. Mas nunca mais o país viveu um período de hiperinflação, em que os índices de preços chegaram a variar mais de 80% em um único mês. Como esse processo já tem 26 anos e a confiança na moeda, sob a vigência do regime de metas de inflação, tem tido sucesso, dificilmente o país voltaria a viver o processo de desconfiança na moeda nacional que leva ao medo e à inflação descontrolada. Hoje, os riscos a evitar são de outra natureza. O controle das contas públicas e a preservação de boas condições no balanço de pagamentos, aliados à recuperação consistente da economia, são os objetivos que poderiam ajudar a construir um novo período de crescimento econômico com estabilidade monetária. Após a atual crise, não voltar a esse rumo poderia implicar saída de capitais, depreciação cambial, aumento da inflação, aumento de juros internos (para conter esse processo) e baixo crescimento.

A questão central é a sustentabilidade fiscal?

Reequilibrar a dívida pública, como proporção do PIB [Produto Interno Bruto], é fundamental, mas não é condição suficiente para voltarmos a crescer. É preciso também retomar a agenda da produtividade, com investimentos em infraestrutura e educação. Com o fim do bônus demográfico [pessoas economicamente ativas em número maior que as inativas], será muito mais difícil ao país apresentar taxas de crescimento econômico mais elevadas. Perdemos essa oportunidade, e agora será mais difícil dar tração ao desenvolvimento econômico.

Como retomar a austeridade fiscal e o cumprimento rígido do teto de gastos em um Congresso que, segundo o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), flexibilizou sua conduta após a reforma da previdência, com medidas que concedem “bondades” e aumentam os gastos públicos. O senador também chamou a atenção, durante webinar promovido pela Instituição Fiscal Independente, para a falta de coordenação do Executivo e dos sinais confusos que o Legislativo vem recebendo por parte do governo federal.

O senador Tasso Jereissati está com a razão. O Executivo é, por natureza, o guardião do equilíbrio macrofiscal. Ele é quem deve zelar pelo controle da dívida, pela garantia das condições para o crescimento econômico com inflação controlada e a queda do desemprego. Ao abdicar dessa função central, o Congresso Nacional tenta suprir esse vácuo. A aprovação da reforma da previdência foi um exemplo. Agora, ao longo da crise da covid-19, também aprovou projetos importantes, como o auxílio de R$ 600 aos vulneráveis. É natural que, em meio a uma crise como esta, o Congresso mude de direção e busque aprovar novas despesas. É o que todos os países estão fazendo. O que preocupa é a ausência de um norte e de uma agenda, por parte do governo, que ajudem a direcionar as ações do Congresso para o pós-crise, evitando aprovar gastos novos ou permanentes não relacionados ao combate da doença e de seus efeitos sobre a economia. É nesse contexto que o teto de gastos ganha maior relevância. Vale lembrar que a regra do teto é constitucional e contempla gatilhos, medidas automáticas de ajuste, a serem ativadas em caso de rompimento do limite de despesas. O governo precisa viabilizar esse rompimento, inclusive debatendo as questões jurídicas que envolvem o assunto. Não pode deixar para resolver isso na última hora. Neste momento, em que se está elaborando o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) para 2021, o assunto já deveria estar sendo avaliado em profundidade.

Quando moeda é desconfiança

Desde que o dinheiro se impôs como um meio de pagamento superior ao escambo (troca pura e simples de mercadorias), ele tem na confiança o mecanismo que o torna tão prático e ao mesmo tempo o que pode pôr tudo a perder. Entre as primeiras fraudes envolvendo o motor por excelência da economia está a cunhagem de moedas falsas, em metais de baixíssimo valor. Quando adquiriu também a função de reserva de valor, convertendo-se em capital, o elemento confiança assumiu peso extra. Nesse momento, o dinheiro mereceu de Aristóteles um conceito negativo: indo além de instrumento mercantil, considerava o filósofo grego, o instrumento poderia não estimular a desejada virtude nos seres humanos. Indiferente aos clamores filosóficos, o vil metal seguiu sua trajetória aventureira ao longo da história e ganhou também o papel de referência de preços.

Apesar de não ser, em sua essência espiritual, confiável, foi o dinheiro que tornou possível as relações econômicas, mesmo que indiretamente. Mas para que cumprisse bem as suas três funções (meio de pagamento, reserva de valor e referência de preços), a moeda deveria estar protegida dos efeitos indesejáveis da especulação, ainda que especular com dinheiro seja inseparável da própria natureza do mercado. Na falta dos devidos cuidados, crises e quebradeiras abalaram periodicamente a reputação do dinheiro. Por isso, dar confiabilidade à moeda tem ocupado os indivíduos mais nobres entre aqueles que não detestam dinheiro. Foram eles a pôr em prática ideias como a cunhagem em prata e ouro, mais tarde substituída por ouro entesourado nos bancos centrais em valor equivalente às notas e moedas em circulação, o que não logrou, contudo, evitar crises. Banqueiros e bancos centrais nem sempre se mostraram técnicos ou idôneos.

Como o sistema monetário passaria a depender apenas e tão somente de confiança e quais seriam os passos necessários para mantê-lo estável são os temas de um artigo de Allan Coelho Duarte, consultor legislativo do Senado. Ele defende uma “ancoragem” mais firme da moeda no momento em que o mundo é sacudido outra vez por incertezas econômicas, a que se somaram os efeitos perversos da pandemia provocada pelo novo coronavírus. O assunto é controverso e há outras opiniões em debate. Para acompanhar a argumentação de Duarte, é recomendável passar antes pela linha do tempo que mostra a evolução dos controles monetários.

Leia o artigo:

Perspectivas para o sistema monetário internacional diante da pandemia e outros desafios

Allan Coelho Duarte
Consultor Legislativo do Senado

Propagava-se o discurso de que a economia mundial estava sólida, em ótima forma, com perspectivas de crescimento excelentes, até que a covid-19 surgiu, pondo fim a esse hipotético futuro promissor. As medidas de contenção sanitária adotadas implicaram o fechamento completo de inúmeras indústrias e estabelecimentos comerciais — houve a quase paralisação do sistema econômico. Consequentemente, em virtude dos enormes, evidentes e inevitáveis problemas advindos da quarentena imposta, não restou alternativa para governos e bancos centrais a não ser a instituição de diversos programas de manutenção de renda e incentivo de crédito. No entanto, tão logo passe esse problema, tudo voltará ao normal.

Não entraremos no mérito da assertividade das medidas adotadas com o intuito de se evitar a propagação do novo coronavírus. Aqui, avaliaremos a veracidade da narrativa acerca do contexto econômico global, bem como os possíveis cenários futuros para o sistema monetário nacional e internacional em virtude das medidas monetárias e creditícias que atualmente estão sendo implementadas no Brasil e em todo o mundo.

Sendo assim, preliminarmente, cabe a pergunta: qual era, realmente, a situação econômica internacional no período anterior à eclosão da pandemia de covid-19? Passávamos por um período de pujança inquestionável?

Para responder a essas perguntas é preciso fazer um recuo no tempo. A partir da oficialização do sistema de reservas fracionárias, que permite que os bancos emprestem capitais de terceiros depositados em múltiplos que chegam a mais de dez vezes o montante mantido em suas reservas, e da ampliação da atuação coordenada dos bancos centrais e privados, o mundo passou a viver períodos de inflação monetária e expansão de crédito (boom) seguido por períodos de extrema e repentina contração de crédito e liquidação de investimentos equivocados (bust) que haviam sido, previamente, estimulados pelo boom.

Até a Primeira Guerra Mundial, as tendências inflacionárias dos bancos centrais eram contrabalanceadas pelo padrão-ouro. Porém, justamente em virtude das limitações que impunha à expansão monetária, este passou a ser falseado até ser completamente abandonado em 1971. Assim, especialmente após embarcar oficialmente em um sistema monetário completamente fiduciário, isto é, baseado apenas na confiança no valor arbitrário que o governo e o banco central conferem ao dinheiro, o mundo mergulhou em uma avalanche monetária, que é amplificada sempre que há qualquer sinal de contração na atividade econômica.

Desde o ano de criação do Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA), em 1913, o dólar perdeu mais de 98% de seu poder de compra. Desde 1994, ano de sua criação, há apenas 26 anos, o real já perdeu quase 84% de seu poder aquisitivo. Segundo dados do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), em maio de 2020 eram necessários 619,60 reais para comprar algo que custava 100 reais em julho de 1994. Os cálculos podem ser efetuados no site do Banco Central.

O modus operandi de tudo isso se dá, simplificadamente, da seguinte maneira: amparados na síntese keynesiana-monetarista que domina o pensamento econômico contemporâneo, quando desejam estimular a economia, os governos aumentam seus gastos. E como costumam gastar muito mais do que arrecadam, emitem dívida para sustentar seus gastos. Essa dívida deverá ser paga de uma forma ou de outra, com repercussões na economia real.

Contrariamente ao que pensam os adeptos da Teoria Monetária Moderna, dinheiro e riqueza não são sinônimos. Portanto, para arcar com a sua dívida, ou o governo recorre ao aumento de impostos (o que tem um limite evidente) ou à pura e simples impressão de dinheiro (o que empobrece toda a população, ao diminuir o poder de compra da moeda em poder do público).

Aliás, outro nome cabível para a Teoria Monetária Moderna (Modern Monetary Theory, MMT), e mais apropriado, seria Magic Money Tree (árvore mágica do dinheiro). Afinal, essa ideia não tem nada de moderna. Já foi, e continua sendo, testada em diversos momentos da história, sempre com o mesmo resultado: colapso econômico e monetário.

Riqueza são bens, produtos e serviços, que dependem da exploração eficiente de recursos naturais, mão de obra e capital, os quais são escassos. Imprimir dinheiro, além de não fazer brotar do ar esses recursos escassos, não é capaz de direcionar corretamente os recursos disponíveis de maneira a conjecturar bens de consumo.

A estrutura de capital da economia, que permite a produção de bens e a oferta de serviços, é complexa e dinâmica. Os outputs que gera não são instantâneos. O tempo é uma necessidade frequentemente negligenciada pelos adeptos de teorias inflacionárias. Ademais, ignoram o fato de que, em um sistema complexo, ao se modificar arbitrariamente, de forma simples, os incentivos relacionados ao seu funcionamento, as consequências são inevitáveis e imprevisíveis, desestruturam e acarretam ineficiências.

John Maynard Keynes (à direita) cumprimenta o então secretário do Tesouro dos EUA, Harry Dexter White, na reunião de inauguração do Fundo Monetário Internacional (FMI), em 1946 (foto: FMI)

Feita essa breve digressão, retornemos ao nosso raciocínio. Caso o governo opte pela simples impressão de dinheiro, ocorrerá a monetização direta da dívida, testada, por exemplo, na República de Weimar (Alemanha), na Argentina, na Venezuela, no Zimbábue e no Brasil dos anos 1980 e início dos anos 1990. As consequências finais, em todos os casos, foram hiperinflação, descoordenação da estrutura de capital, crises econômicas, aumento do desemprego e empobrecimento da população.

Outra hipótese é que, para arcar com a ampliação dos seus gastos, o governo emita títulos e os venda, em seguida, para bancos privados. Estes, subsequentemente, vendem tais títulos para o banco central, que os compram sob o pressuposto de manter baixas as taxas de juros, em operações compromissadas de revenda. Assim, há uma monetização indireta da dívida pública, que vem crescendo a passos largos em todo o mundo, especialmente após o novo coronavírus. Nesse cenário, teoricamente, os bancos centrais deveriam, posteriormente, revender os títulos comprados aos bancos privados, reduzindo o próprio balanço e enxugando a liquidez adicional que havia sido criada. Porém, na prática, isso não tem ocorrido.

O dinheiro que os bancos centrais utilizam para comprar as dívidas dos bancos comerciais é criado do nada, completamente do ar, sem quaisquer lastros com ativos reais. Quando esse dinheiro é injetado no sistema, isso é feito via um aumento dos dígitos nas contas de reservas que os bancos comerciais mantêm nos bancos centrais. Simples assim. Em seguida, os bancos comerciais utilizam esse dinheiro para concessão de crédito, que é absurdamente amplificado pelo já discutido sistema de reservas fracionárias.

Como os grandes banqueiros e os grandes empresários têm acesso primeiro a esse dinheiro recém-criado, possuem uma ampla vantagem em utilizá-lo antes que os reflexos dessa avalanche monetária alcancem a economia real, produzindo aumento de preços, que pode se materializar não apenas em bens de consumo, mas também em ativos reais, como imóveis, e ativos financeiros, como ações e títulos de crédito. Assim, fica fácil compreender um dos principais motivos pelos quais a desigualdade social vem aumentando absurdamente nas últimas décadas, justamente quando a criação de dinheiro do ar assumiu proporções jamais vistas.

Feitos esses esclarecimentos, podemos compreender a situação da economia às vésperas da pandemia. Seguem alguns dados:

  • Ainda em setembro de 2019, começaram a proliferar problemas de liquidez no mercado interbancário norte-americano, o repo market, o que já demonstrava que, independentemente do vírus, a aversão ao risco no sistema financeiro estava se intensificando. Como resposta, o Fed interveio pesadamente na economia, comprando ativos bancários e injetando dinheiro na economia a uma velocidade alucinante.
  • Quando ocorreu o estouro da crise de 2008, o nível de endividamento global era de 173 trilhões de dólares. No fim de 2019, antes do novo coronavírus, era de cerca de 255 trilhões de dólares, aproximadamente 320% de todo o Produto Interno Bruto (PIB) global.
  • Grande parte dessa dívida estava, e continua sendo, empregada em capital altamente improdutivo, como empréstimos para consumo e especulação financeira por grandes fundos de hedge.
  • No Japão, o percentual da dívida bruta em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) já superava 238%, enquanto nos Estados Unidos passava de 106%. No Brasil, beirava os 80%.
  • Aproximadamente 17 trilhões de dólares em títulos globais apresentavam juros negativos, responsáveis por criarem inúmeras distorções no mercado de capitais, inclusive a “zumbificação” de inúmeras empresas.
  • Havia cerca de 70 trilhões de dólares em dívidas de empresas não financeiras, sendo que 5 trilhões a vencer nos próximos anos (e, mesmo antes da covid-19, já não se sabia como seriam pagas ou se as empresas conseguiriam rolá-las).
  • As dívidas de altíssimo risco correspondiam a cerca de 1,2 trilhão de dólares, sendo que, quando estourou a crise de 2008, elas correspondiam a metade desse valor (600 bilhões de dólares).
  • Havia grande disseminação de instrumentos especulativos com grande potencial de desastre, como, por exemplo, os Credit Loan Obligations (CLOs), cujo mercado chegou a quase 1 trilhão de dólares.
  • O índice S&P 500 já havia se descolado consistentemente dos lucros corporativos, atingindo um patamar sem precedentes na história (e sempre que algo semelhante ocorreu, houve o estouro de uma crise).
  • A quantidade de moeda e crédito na economia, que já crescia rapidamente, assumiu uma aceleração substancial desde 2008, em diversos países, com destaque para os Estados Unidos.

Todos esses dados são anteriores à pandemia do novo coronavírus. Desde então, a situação apenas se acentuou. Segundo cálculos do Bank of America, além da diminuição recorde nas taxas de juros, o estímulo global total dos últimos três meses, tanto fiscal quanto monetário, atingiu o impressionante número de 18,4 trilhões de dólares, o que equivale a cerca de 20,8% do Produto Interno Bruto (PIB) global.

Ao incorporar o ano de 2020, a curva referente ao aumento da oferta monetária nos EUA faz uma escalada praticamente vertical.

E o Brasil em meio a essa história toda?

Comércio da Rua 25 de Março, na cidade de São Paulo, fechado durante quarentena para evitar a propagação do novo coronavírus (foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

Segundo dados da Consultoria de Orçamentos do Senado Federal, apenas as medidas provisórias editadas para enfrentamento da covid-19, mediante a abertura de créditos extraordinários (o que não inclui programas com origem no Legislativo, como o Pronampe), já superaram a cifra de 403 bilhões de reais. Isso equivale a cerca de 5,5% do PIB nacional de 2019, o qual deve se reduzir consideravelmente neste ano devido às medidas de fechamento da economia.

Consequentemente, é possível que o indicador dívida bruta em relação ao PIB ultrapasse, em breve, a marca de 90%.

Do lado monetário, o Banco Central já reduziu a taxa Selic, a qual consegue controlar diretamente, para 2,25% ao ano. Isso não é percebido diretamente no dia a dia de quem busca a tomada de empréstimos porque, apesar das sucessivas quedas da taxa Selic, as taxas de juros futuras continuam elevadas, justamente porque o mercado não acredita que esse patamar reduzido poderá ser mantido por muito tempo. O aumento da confiança depende de reformas severas que melhorem o ambiente institucional, a segurança jurídica, a tendência da dívida pública e da oferta monetária, e que reduzam outros riscos relacionados ao nosso país.

Além disso, o Banco Central conseguiu, em virtude da aprovação da Emenda Constitucional 106/2020, a prerrogativa de intervir no mercado de crédito para comprar títulos privados diretamente nos mercados secundários nacionais.

Os efeitos ainda são recentes, mas vejamos o gráfico correspondente ao aumento da oferta monetária no Brasil apenas até abril deste ano, ou seja, antes de boa parte das medidas discutidas serem implementadas.

Considerando a história inflacionária do nosso país, a linha praticamente vertical no ano de 2020 é especialmente preocupante.

A verdade é que, desde que acabaram com o lastro da moeda, que regula naturalmente a impressão monetária, os bancos centrais estão livres para inflar indefinidamente a base monetária. Especificamente, a partir dos anos 2000, o então presidente do banco central dos EUA (Fed), Alan Greenspan, começou a fazer isso de uma forma avassaladora. Na tentativa de maquiar o bust que ocorreu naquela época, ele baixou as taxas de juros a níveis mínimos e expandiu absurdamente a moeda. Ao impedir a ocorrência de uma crise maior que corrigisse as distorções causadas pelo próprio governo e pelo banco central norte-americanos, o caminho ficou livre para a crise seguinte, que ocorreu em 2008, quando o excesso de crédito foi canalizado especialmente para o mercado imobiliário.

Com o estouro da crise de 2008 — e já impossibilitados de baixar mais as taxas de juros —, o presidente do Fed na época, Ben Bernanke, instituiu um programa de “relaxamento” monetário, intitulado quantitative easing, que consiste na compra de ativos diretamente de instituições financeiras pelo Fed, sob a pretensão de aumentar a liquidez monetária.

Como previsto pela teoria austríaca dos ciclos econômicos, esse aumento de oferta monetária e a manutenção dos juros abaixo do nível natural geraram bolhas em diversos ativos (seja o mercado imobiliário, de crédito ou de ações, todos batendo recordes históricos). O mundo nunca esteve tão endividado e a desigualdade social nunca foi tão elevada.

A situação insustentável já estava a ponto de ser escancarada, com o Fed tendo que atuar intensamente no mercado de títulos norte-americano, especificamente nas operações chamadas repurchase agreement (Repo), desde setembro de 2019, em virtude de crises de liquidez sucessivas. O novo coronavírus só veio exacerbar a situação.

Consequentemente, em virtude da crise causada, as instituições financeiras, já altamente alavancadas, contraíram crédito, investidores começaram a vender seus títulos em busca de liquidez e houve aumento da percepção de riscos em diversas áreas. Tudo isso levou ao aumento generalizado de juros no mercado privado.

Com o intuito de impedir que a crise, há muito latente, se evidenciasse, o Fed começou a intervir pesadamente no mercado dos EUA. Inicialmente, comprando mais títulos públicos e hipotecas. Em seguida, comprando também títulos privados com altas notas de classificação de risco. Agora, comprando também junk bonds (títulos podres, emitidos por empresas com elevado risco de falência). Consequentemente, os ativos em poder do Fed têm aumentado a um ritmo simplesmente alucinante. O balanço da instituição, em poucas semanas, saiu de menos de 4 para 6 trilhões de dólares. Espera-se que atinja a marca de 9 trilhões nos próximos meses.

Além disso, nas últimas semanas, o Fed vem mudando o foco de suas operações. Em vez de conceder recursos para instituições financeiras, está aumentando a utilização de Special Purpose Vehicles (SPVs) destinados a, em última instância, conceder fundos para o consumo. Ou seja, o Fed está passando a jogar dinheiro diretamente na economia, em vez de apenas nos mercados financeiros. Isso pode representar tanto uma tendência de aumento de preços de bens de consumo quanto de queda no valor de ativos financeiros valorizados artificialmente, a conhecida bolha, cujas consequências são imprevisíveis.

Diante do exposto, e da evolução do sistema de controle da moeda, podemos tentar avaliar o que ocorrerá com as moedas fiduciárias, especialmente o real, no futuro próximo.

Obviamente, os efeitos das práticas atuais não são imediatos. Levam de meses a anos para se materializarem. Entretanto, uma vez que a situação de quase paralisia econômica atual comece a se desfazer, o mercado de crédito comece a se destravar e esse excesso de dinheiro, aliado ao choque de oferta impetrado pela quarentena, comece a circular, podemos começar a sentir aumentos de preços em bens de consumo sensíveis para a renda familiar, como os de alimentação.

Vale dizer: haverá muito mais dinheiro em circulação, mas, de imediato, muito menos coisas para comprar. E essa diminuição drástica na oferta não será revertida instantaneamente. Para avaliarmos adequadamente esse impacto inflacionário no dia a dia da população, é importante não olharmos apenas para índices gerais de preços, como o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), os quais são influenciados por fatores específicos, como a queda momentânea dos preços dos combustíveis, com pesos definidos arbitrariamente e que, portanto, podem não refletir adequadamente as repercussões dos preços no orçamento doméstico.

Se a economia internacional já estava em um momento delicado antes da covid-19, agora a situação é crítica. As atitudes tomadas por governos e bancos centrais estão sacrificando a estabilidade do frágil sistema fiduciário, pautado em moedas sem lastro e que vigora nos últimos cinquenta anos.

Caso continue o aumento desregrado de oferta monetária, seja para manter juros baixos e programas de quantitative easing em andamento, seja para monetizar gastos do governo, inevitavelmente haverá:

  • Inflação de preços; e/ou
  • Contínua ampliação da desigualdade social, em função da inflação de ativos reais e financeiros.

Se ocorrer a primeira hipótese, inflação de preços, e os bancos centrais reagirem tentando aumentar juros, as dívidas públicas e privadas ficarão simplesmente impagáveis, o que levará a um efeito cascata de calotes, o qual, por sua vez, provocará grandes instabilidades geopolíticas, típicas de momentos de mudança de paradigmas. Nesse contexto, é possível que o sistema fiduciário atual colapse. Por outro lado, caso os bancos centrais ignorem o problema e continuem ampliando indefinidamente a oferta de moeda para cobrir diretamente gastos públicos ou sustentar uma economia “zumbi”, é possível que ocorra uma hiperinflação nos moldes já conhecidos por nós brasileiros, o que também ocasionará um colapso monetário.

Se ocorrer a segunda hipótese, direcionamento da oferta monetária para ativos reais e financeiros, ainda que não haja manifestação da inflação nos preços dos bens de consumo, a consequência imediata será uma contínua ampliação da desigualdade social, em virtude da manutenção artificial de juros baixos e concessão de privilégios a banqueiros e grandes empresas com acesso a crédito farto e barato (bancado às custas do restante da população). Nesse caso, é possível que ocorra um verdadeiro rasgo no tecido social, ocasionando revoltas sem precedentes no mundo moderno — o que também escancarará as vulnerabilidades do atual sistema monetário.

Como se vê, não apenas o Brasil, mas todos os países do mundo estão em uma encruzilhada inédita, que pode colocar em xeque o status de reserva internacional por parte do dólar e, consequentemente, as bases do sistema financeiro atual.

Em meio a esse cenário, moedas de países emergentes — que têm histórico de insegurança jurídica e institucional, calote de dívida pública e descontrole monetário —, como é o caso do nosso real, podem ser ainda mais negativamente afetadas.

A única saída para qualquer governo e banco central que queira evitar a depreciação, talvez completa, de sua moeda e manter o crescimento econômico, a melhoria de qualidade de vida de sua população, reduzindo a desigualdade social no médio e no longo prazos, é encarar essa realidade e passar a:

  • controlar as intervenções estatais na economia, que se proliferaram ainda mais nos últimos meses, e os gastos públicos, o que significa controlar a emissão de dívida pública e as suas consequências nefastas;
  • reduzir o intervencionismo dos bancos centrais e a emissão monetária desenfreada, independentemente dos motivos, e, preferencialmente, atrelando a emissão a um ativo monetário de valor histórico que impeça futuros abusos, como o ouro. O Banco Central do Brasil tem nas mãos uma ótima oportunidade de ancorar no ouro suas reservas internacionais, vinculadas atualmente a títulos do Tesouro norte-americano, enquanto não ocorrer um “jubileu” (cancelamento) global de dívidas públicas e o dólar ainda seja a moeda de reserva internacional. A Rússia tem colocado em prática estratégia similar. Nos últimos anos, aumentou consideravelmente o estoque de ouro do banco central do país e vendeu grande parte das suas treasuries;
  • permitir que os juros, como preços que são, sejam definidos livremente pelo mercado, e não por uma entidade centralizada, como os bancos centrais; e
  • reformar o sistema bancário, para que se acabem com os inúmeros privilégios desse setor, com ênfase na correção das deturpações causadas pela oficialização e pela apropriação, pelos bancos centrais, do sistema de reservas fracionárias como instrumento de política monetária.

Apenas assim evitaremos que novos ciclos econômicos perversos, como o atual, voltem a se perpetuar e, pela primeira vez na nossa história, colocaremos o Brasil e a sua moeda, o real, na vanguarda das mudanças que advirão da quebra de paradigmas (marcados por décadas de abusos do atual sistema de moeda fiduciária).

Fonte: Agência Senado

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