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Bolosonaro demite Decotelli, novo ministro da Educação

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José Antônio Severo

O artilheiro-paraquedista Jair Bolsonaro deu um primeiro tiro n’água, mas já no segundo disparo acertou o marujo à meia nau, pondo a pique a esperança de um gabinete mais contido, nos moldes do fracassado Ministério dos Notáveis, de Fernando Collor, em 1922. O ministro da Educação, marinheiro na juventude, nem esquentou a cadeira. Foi demitido no fim do dia.

Na manhã de terça feira ele ainda tinha esperanças de continuar no cargo, pois o MEC estava com toda sua máquina parada há dias, num momento crucial, às vésperas do início do processo de fim de ano, que são os momentos decisivos no calendário do ensino. Mesmo precária, sua nomeação era oficial e seus atos legais válidos. Daria vasão aos expedientes represados.

Na terça feira, depois de uma reunião como presidente Jair Bolsonaro, no Palácio da Alvorada, o ainda ministro Carlos Alberto Decotelli foi jogado aos leões. Seu desafio, como dos cristãos no Coliseu, seria escapar das feras de mão abanando, desarmado. Como bom crente das hostes do presidente da República, teria de demonstrar na prática, em curtíssimo prazo, sua capacidade de se movimentar em terreno hostil, para sobreviver ao desastre de sua ascensão ao primeiro escalão do governo.

Indicação militar

Apresentado como um hábil negociador, respaldado pela indicação da um representante da Marinha no Palácio do Planalto, o almirante  (da ativa) Flávio Augusto Viana Rocha ( diretor da SAE), referendado pelos quatro estrelas do Exército mais bem posicionados, o vice-presidente Hamilton Mourão e o assessor especial da GSI, general Eduardo Villas Boas, Decotelli chegou ao presidente Jair Bolsonaro vestido num invejável currículo acadêmico e a fama de negociador habilidoso, ouvinte paciente e direitista da linha civilizada, capaz de aplacar as fúrias da mídia. Como se sabe, os jornalistas não dão trégua a nenhum governo, que o digam FHC, Dilma e Lula, estes últimos culpando diretamente à imprensa profissional por seus problemas com a opinião pública.

Devido ao esparramo provocado pelo elefante na loja de cristais, como foi a passagem do ex-ministro Abraham Weintraub pelo Ministério da Educação, que o chefe do governo não teve como tirar Decotelli de supetão. Ele caíra do céu como uma luva. Assim como a benção, de uma hora para outra o santo desmoronou no quinto dos infernos, derretendo todas suas credenciais, menos a boa-vontade dos segmentos políticos, que continuam apostando em sua capacidade para pacificar minimamente essa área crítica. Coisas da política. Não deu.

Almirante abandona o barco

Num piscar de olhos, de Decotelli mudou sua configuração : desembarcara no Planalto Central com a imagem de sábio cientista social super-qualificado, que, em poucas horas, virou a figura de um farsante, pois nenhum de seus títulos parou de pé, nem mesmo a docência na Fundação Getúlio Varga, onde ele diz trabalhar há 40 anos; de sinuelo do ministério de notáveis transfigurou-se para persona incômoda, tisnada por desconfianças das universidades que cursou. Mudou do apoio militar da Marinha para a prancha de execução do costado do navio e uma discreta retirada do almirante e dos envergonhados generais. Mais ainda, mas ainda não seria tudo, pois surgiram novos obstáculos, pois há suspeitas muito consistentes de improbidade ou incompetência na sua gestão do FNDE, nos primeiros dias do atual governo.

Mas ele continuava lá até de tarde, com a caneta na mão e seu nome no Diário Oficial da União legitimando o cargo, dando conta do expediente atrasado.  Agarrado à última tábua de salvação, ele flutuava ao sabor das ondas. Era tamanho o estrago na Educação, resultante da gestão anterior, que, mesmo assim, com suas capacidades comprometidas, ele teria condições de evitar o pior, qual seja: um engalfinhamento catastrófico entre as alas ideológicas do bolsonarismo pelas ruinas do MEC. É tão grave a situação no Bloco L Anexo 1 da Esplanada dos Ministérios, no imponente Eixo Monumental de Brasília, que o presidente não teve outra saída, senão pedir que ele fosse ficando até encontrar outra solução. Havia a expectativa de que os opositores internos amenizassem seus ataques em nome do mal menor, pois saindo Decotelli poderia chegar outro que deixe saudades do Weintraub. Os nomes aventados para a sucessão vêm da ala ideológica.

Parte porque ainda não tem um nome, parte porque não tinha ainda outra saída, o presidente deu um tempo para Decotelli ir levando o barco, tamanhas eram as urgências no setor. Isto criou a esperança de que ele poderia ficar alguns dias no cargo, como disse o presidente Bolsonaro ao repórter da CNN: “ainda não decidi substituí-lo”.   Pronto. Ele se foi.

Blog Edgar Lisboa

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