22 de novembro de 2017
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Caso François Hollande e da primeira(?) dama francesa

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Paris, triângulo amorosoOs franceses têm fama de rabugentos e talvez por isso não se dobram com facilidade aos mexericos midiáticos. Nem que por dentro estejam morrendo de vontade de bisbilhotar. É o que se pode depreender das últimas pesquisas do Journal de Dimanche: a primeira delas diz que 77% dos cidadãos da pátria de Napoleão Bonaparte e do general Charles De Gaulle, até hoje odiados pela oligarquia europeia e americana, por não terem se deixado curvar ante o capitalismo selvagem, não admitem, em princípio, que a vida privada de si próprios e de seus líderes seja devassada para saciar a curiosidade dos mexeriqueiros. A segunda, feita a partir da revelação dos encontros secretos do presidente François Hollande com a atriz de TV Julie Gayet, num pardieiro perto do palácio presidencial, o requintado Élysée,  reforça ainda mais esta convicção, ao constatar que 84% da população não admitem a violação dessa privacidade. Eles se agarram principalmente ao artigo nono do código penal, outra herança napoleônica de que muito se orgulham, segundo o qual, os elementos concernentes às relações amorosas de uma pessoa não podem ser revelados (*).

Alguns brasileiros não conheciam esta determinação da cidadania na França até um dia que um líder político chamado Carlos Lacerda, governador do então estado da Guanabara, foi fazer uma gracinha com as moças de lá. Lacerda, homem de direita, grande orador e possuidor de vasta cultura, era conhecido nos anos 50 e 60 como o demolidor de presidentes. Arquitetou a queda de Getúlio Vargas, em 1954, quase derrubou Juscelino e foi um dos principais autores do golpe de 64 que apeou João Goulart. Lacerda, porém, só sabia destruir. Tanto assim que, impedido de assumir o vazio de poder com o afastamento de Jango, foi enviado a Paris para divulgar a “Revolução gloriosa”. Falando um francês impecável, Lacerda se viu em maus lençóis quando os jornalistas, provavelmente amparados nos exemplos da fase de terror da revolução francesa de 1789, lhe indagaram que revolução era aquela se não tinha morrido ninguém: “É que as revoluções no Brasil são como os casamentos na França, não tem sangue”, foi a resposta do representante do golpe, no outro dia “convidado” a se retirar do país, por ter atentado contra a honradez das francesas. Era presidente na época, o general De Gaulle, em meio ao seu projeto de soerguimento do país batido pela guerra e a corrupção.

Aparentemente fiado neste pressuposto, François Hollande se recusou a tratar do tema na entrevista coletiva que deu esta tarde no antigo palácio imperial, no qual foi instalada Madame Pompadour, por ordem de seu amante o rei Luis XV, apinhado de 600 jornalistas de todos os quadrantes do mundo. Aos questionamentos nervosos e insistentes dos sôfregos repórteres, o presidente respondeu com altivez: “Os assuntos privados se tratam na privacidade (en privé), dentro da intimidade respeitosa de cada qual. Consequentemente, (aqui) não é o  local nem o momento para fazê-lo… Sou presidente e, como tal, protegido por uma imunidade. Ninguém pode me atacar. Posso atacar os outros? Esta é uma questão de princípios. E se eu me retenho, é porque não há dois pesos e duas medidas. Minha indignação é total”. Em nome da transparência, contudo, François Hollande prometeu esclarecer sua situação conjugal com Valérie Trierweiller, a namorada que trouxe para o palácio depois de assumir a presidência, em maio de 2012, em outra oportunidade, mas antes da visita ao casal Obama e Michelle, na Casa Branca, prevista para o dia 12 de fevereiro.

Pena é que François Hollande, um socialista que se tem revelado tão ou mais submisso às exigências do FMI e de Washington quanto o seu antecessor neoliberal Nicholas Sarcozy, não tenha usado da mesma altaneria para descartar as pressões da banca internacional para enfileirar a França no mesmo matadouro da Grécia, Espanha e Portiugal. Pelo contrário, ele usou esta entrevista coletiva para anunciar um corte de gastos de vários bilhões de euros e uma diminuição na carga fiscal das empresas, naquilo que está sendo chamado de “reviravolta socialista liberal”. Segundo ele, as medidas são para aliviar o desemprego, que não consegue recuar da faixa dos 10 e 11 por cento. Para este ano, ele anuncia a criação de pífios 50 mil novos postos de trabalho.

Mas voltando ao affaire conjugal, François Hollande terá de usar muito de seu tato, político, inclusive, para sair da enrascada em que lhe meteram seus impulsos donjuanescos. Flagrado pela revista de futricas People Closer na garupa de uma moto e na entrada (com capacete e tudo) de um apartamento de segunda classe perto do Elisé no qual passou uma noite com Julie, na véspera de fim de ano. Hollande sabe que não será fácil desnvencilhar-se da namorada traída Valérie, uma jornalista do Paris Match, neta de banqueiros e com trânsito fácil na alta sociedade e círculos políticos de Paris.

Valerie Massonneau (este é seu nome de solteira), de 48 anos, herdou o Trierweiler de seu segundo marido Denis Trierweiler, sub-editor do Paris Match, com quem teve três filhos, e Julie Gayet, 41 anos, atriz renomada e produtora de filmes e de TV, divorciada e mãe de dois filhos, são mulheres escoladas, que não parecem deixar nada por menos. Valérie, que mantém uma vida em comum com Hollande desde 2007, exigiu morar com o namorado (François, ao que parece, nunca casou, nem com Segoléne Royal, candidata socialista a presidência da República por essa época, e mãe de cinco filhos de ambos), um gabinete com porta-voz próprio no palácio, que é também residencial, além de usar o título de primeira dama. De tão exigente, ela passou a ser chamada Valérie Rotweiler, alusão maldosa à célebre raça canina. Julie Gayet, uma loira esfuziante e de olhar meigo, foi quem alugou o aparelho para encontrar François no fatídico 30 de dezembro de 2013. Ambas são militantes do Partido Socialista e ex-amigas de Segoléne Royal, a primeira namorada. Nenhuma delas quis se manifestar sobre o caso até aqui, reagindo segundo o estilo de cada uma. Valérie, mais dramática e pretendendo despertar uma compaixão pública, baixou a um hospital. Julie mergulhou no silêncio, mas certamente está agindo nos bastidores.

Francesas que são, elas devem estar cientes da indiferença dos concidadãos em relação a esses escândalos e, por isso, preferem as ações silenciosas. O mesmo pretende fazer François, ainda que numa situação bem mais difícil: a de presidente de uma das potências ocidentais.

(*)  O artigo nono do Código Civil da França, datado de 1803 e atualizado em 1994,  estabelece:  ”Chacun a droit au respect de sa vie privée. Les juges peuvent, sans préjudice de la réparation du dommage subi, prescrire toutes mesures, telles que séquestre, saisie et autres, propres à empêcher ou faire cesser une atteinte à l’intimité de la vie privée : ces mesures peuvent, s’il y a urgence, être ordonnées en référé”. Tradução livre: “Cada um tem o direito ao respeito à sua vida privada. Os juízes podem, sem prejuízo da reparação do dano causado prescrever quaisquer medidas, tais como sequestro, penhora e outras, destinadas a impedir ou fazer cessar um atentado à vida privada: essas medidas podem, se há urgência, serem ordenadas de forma sumária).

Por FC Leite Filho