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Jorge Kajuru, que mudou seu voto, de celular em punho, no microfone dos apartes, mostrando o visor do aparelho com a pesquisa entre os eleitores.

Democracia direta: o Brasil chega na frente à praça da democracia grega

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José Antônio Severo

Os futurólogos estão cansados de escrever que com as novas tecnologias, com a automação e com a civilização do conhecimento o mundo voltará aos tempos das praças gregas da antiguidade: ali o povo se reunia para ouvir poesia, assistir teatro e discutir a situação do mundo helênico. Nos tempos modernos, sem emprego para todos, o estado sustentaria essas massas com o entretenimento enquanto os especialistas gerariam a renda para sustentar isso tudo. Seria a nova Ágora.

Esses tempos parecem ter chegado na costa atlântica da América do Sul, apenas transmudados para a política. O que se vê hoje é exacerbação da democracia, como nunca antes na História deste País.

O Brasil virou a praça grega. A decantada Ágora de Atenas, símbolo da democracia seletiva (que excluía os ilotas) chegou ao País de vez pela tela dos celulares. É cidadão quem está integrado nas redes sociais. Jair Bolsonaro é o primeiro o presidente que derrubou os partidos e o poder econômico, vencendo uma eleição nacional sozinho, só nos dedos e no teclado. Neste fevereiro, o comando das redes chegou ao Congresso. Participou da democracia quem estivesse conectado.

Nestes dias, como se viu no Senado, na eleição do presidente da Casa, os parlamentares votaram com seus celulares ligados. Numa ponta os internautas assistiam a sessão. Na outra ponta, liam-se seus recados, imediatamente assimilados pelo plenário. Quem diria, isto que era um vaticínio dos futurólogos chega em primeiro lugar no Brasil. Assim será daqui para a frente.

As redes sociais já eram a coqueluche dos políticos há muito tempo. A campanha de Barak Obama para o Senado dos Estados Unidos, em 1993, já foi “case” pelo emprego maciço de redes sociais, quando um jovem professor universitário derrotou os caciques de Illinois. Três mandatos depois o senador apresentou-se para candidato do Partido Democrata à presidência e uma vez mais foi eleito com a mobilização dia internet.

Entretanto, Obama tinha características do que hoje se chama velha política: era um orador brilhante, sua imagem e sua participação em debates e na tevê eram arrasadores. Nada disso fez Jair Bolsonaro aqui no Brasil. Pelo contrário, o capitão pouco falou, esteve longe dos debates e seu retrospecto parlamentar não o recomendava como articulador político.

Entretanto, foi na tribuna da Câmara que turbinou suas mensagens. Mesmo escondido num fundo de plenário como figura de pouca monta mesmo no cognominado “baixo clero”, suas indignações com temas ligados à segurança, honestidade pessoal e pública, defesa intransigente de princípios conservadores em todas as linhas, fizeram sua imagem.

Também não se pode excluir do efeito em seu currículo da credibilidade de ex-oficial do Exército formado nos bancos da Academia Militar das Agulhas Negras, uma herança de que nunca se desfez. O “capitão” era base da imagem que ele criou, que se projetou e foi acolhida pelo eleitorado como a mais adequada aos momentos que vive o País. Sem qualquer conexão com a chamada classe política convencional, Bolsonaro foi ouvido pelo eleitorado que estava soterrado pela bandidagem, pelos figurões presos e pela sensação de dissolução de costumes sugerida pelo excesso de mídia a determinadas causas chocantes para o brasileiro comum. Isto não é sociologia. É jornalismo simples dos velhos tempos.

Neste próximo ato as redes estarão ativas a cada dia, acompanhando e interferindo na ação do parlamento. Nunca antes na História deste país o parlamentar foi tão representante do povo, uma imagem figurada, como na eleição do senador David Acolumbre para a presidência do Senado. O primeiro a revelar a pressão das redes sociais foi o senador do PRP goiano Jorge Kajuru, que mudou seu voto, de celular em punho, no microfone dos apartes, mostrando o visor do aparelho como a indicar que sua base interferira na sua decisão parlamentar. Esse era o quadro geral, com as imagens do plano geral tomado alto do plenário pela Tevê Senado. O telespectador podia ver as telinhas brilhando lá embaixo e os senadores teclando sem parar. Em vez dos cochichos ao pé do ouvido, via-se o olho na tela, como é comum hoje em dia. Ali estava a nova Ágora. Os repórteres registraram o fato, mas ainda falta uma análise desse acontecimento político.

Inevitável que os marqueteiros, como se chamam os operadores da política, estejam atentos e já se preparando para essa nova configuração do relacionamento do eleitorado com seus clientes. Não faltarão aqueles especialistas que descubram as fórmulas mais eficientes de manipulação. Como os oradores dos tempos clássicos, nascem os demagogos digitais. Mais uma vez o mundo se curva: é no Brasil que o novo mundo se mostrou em sua forma plena pela primeira vez. Estamos na dianteira.

Blog Edgar Lisboa / José Antônio Severo