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Desmatamento Zero na Amazônia foi proposto na Expointer de 2019

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José Antônio Severo

O vice-presidente Hamilton Mourão está de olho na proposta da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, de adoção oficial de meta “desmatamento zero” na Amazônia. Ele é o presidente do Conselho Nacional da Amazônia Legal. A proposta foi defendida em 2019 pelo ex-ministro da Luís Fernando Cirne Lima (1969;73), na Frente Parlamentar da Agropecuária, quando a atual titular da Pasta era presidente da Frente Ruralista.

Fundador da Embrapa (foi ministro da Agricultura entre 1969 e 1973), Cirne Lima integra o conselho de administração do grupo gaúcho SLC, controlado pela família Logemann, um dos maiores produtores mundiais de algodão, soja e milho. Ou seja, vindo de onde vem, a proposta teria origem nos plantadores, não como projeto de governo (a ministra é produtora rural) ou entidades ambientalistas, o que representa uma configuração nova para a questão. São os produtores que pegam a bandeira da preservação da floresta, ao rejeitarem o aumento de áreas para lavouras na selva amazônica.

Essa ideia de um posicionamento vinha amadurecendo desde os tempos dos debates na Câmara sobre a nova legislação dos defensivos agrícolas, no dizer dos plantadores, ou agrotóxicos, na linguagem dos militantes ambientalistas. A primeira vez que veio a público foi num discurso do ex-ministro Cirne Lima, no Parque de Esteio, durante a Expointer, em 2019, numa cerimônia da Federação Brasileira das Associações de Criadores de Animais de Raça (FEBRAC).

Depois o tema chegou à Frente Ruralista, mas encontrou alguma resistência em segmentos da Confederação Nacional de Agricultura (CNA). Parcelas de produtores do agronegócio do Centro Oeste defendem que as proibições de desmatamento se restrinjam à mata virgem, deixando livre para ocupação as fímbrias da floresta amazônica. Essa proposta bate de frente com esses objetivos. Neste sentido, a proposta da ministra aumenta seu alcance.

Os três tenores do agronegócio

Os ex-ministros que implantaram a revolução tecnológica na agropecuária brasileira foram convocados a opinar sobre a sustentabilidade das lavouras. Os três são engenheiros-agrônomos e compõem um trio que é chamado de “os três tenores do agronegócio”: Cirne Lima é ex-professor da Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o mineiro Alysson Paulinelli ( 1974/79), e o paulista Roberto Rodrigues (2003/06), professor de agronegócio da Fundação Getúlio Vargas.

Esse apelido eles ganharam por terem participado da História na condição de esteios do grande salto da agropecuária brasileira de importadora de alimentos para segunda maior produtora mundial. Há uma quarta figura, mas ligada diretamente à comercialização internacional, o ex-ministro Pratini de Moraes (1999/2003), economista.

Eles vêm de formações em escolas de agronomia brasileiras que são referências internacionais na área acadêmico-científica: Cirne Lima da UFRGS, Paulinelli da Faculdade de Agronomia de Lavras, Roberto Rodrigues da Escola Superior de Agricultura Luís de Queiroz (USP – Piracicaba) e a própria ministra da Faculdade de Agronomia de Viçosa (MG). Essas seriam as bases técnicas da revolução agrícola no País a partir dos anos 1970.

Temporada do fogo 

A determinação dos plantadores de assumir a liderança de uma ação conservacionista seria um argumento poderoso para o vice-presidente usar, na condição de gestor do passivo amazônico (queimadas e desmatamento). O desafio retórico é dar respostas adequadas, tecnicamente embasadas e com força política para enfrentar os efeitos negativos à imagem internacional do Brasil, durante a próxima temporada dos inevitáveis incêndios florestais típicos da estação da seca no extremo norte. A estiagem vai de junho a novembro. O fogo se propaga no segundo semestre. Recomeça a polêmica.

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