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Dilma vai para Minas e acaba fazendo a diferença

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Os petistas mineiros estão perguntando quem foi o responsável por mandar Dilma Rousseff de volta para Minas Gerais, se Tarso Genro ou Olívio Dutra, os dois caciques rio-grandenses do Partido dos Trabalhadores.

Os mineiros agradecem porque estavam embretados com a candidatura do deputado federal Virgílio Guimarães, de nula possibilidade eleitoral. A volta de Dilma reabriu a questão do Senado e botou o PT de novo no páreo, com o nome ideal para enfrentar o atual senador Aécio Neves, que ainda é o líder das pesquisas, não obstante o corredor polonês em que se encontra, fustigado pela oposição petista e açoitado pela facção paulista do PSDB, seu partido.

Agora o Partido dos Trabalhadores tem candidata. Muitos militantes atribuem a defenestração branca de Dilma do Rio Grande do Sul a seu desafeto Tarso Genro, que foi ignorado por ela durante seu governo, mesmo quando o santa-mariense ocupava o Palácio Piratini e seria um aliado valioso. Ele devolveu o desprezo.

Neste quadro, dizem esses companheiros que o PT gaúcho deu a Minas Gerais um presente tão oportuno e conveniente quanto Olívio Dutra a Antônio Carlos Magalhães, então governador da Bahia. Como se recorda, o governo gaúcho mandou a Ford embora do Estado, quando a empresa já estava na fase de terraplanagem no local da fábrica e iniciava as obras de um porto no rio Guaíba.

O atracadouro seria destinado para o abastecimento do complexo industrial. Como se sabe, uma montadora de automóveis traz consigo um rosário de indústrias fornecedoras que se instalam nas imediações da nave mãe para entregar suprimentos “just in time”. Foi tudo por águas abaixo na pachorrenta correnteza do Guaíba e foi parar na costa da Bahia, onde a Ford produz hoje os carros da linha Fiesta, vendidos no mercado interno e na exportação. Dilma é uma nova Ford. Dilma fazia parte desse governo como secretária de Minas e Energia.

Segundo seus adversários, Dilma foi derrubada por inapetência e incompetência política. Já seus aliados e ela própria atribuem a queda a um golpe parlamentar, uma novidade na teoria política. Mas vá lá. Em vez de tanques, as canetas da oposição. Bem se diz que uma ideia é, politicamente, mais perigosa que um canhão. Dilma caiu no grito.

Mas o bordão do golpe pegou. Tanto é verdade, que ressuscita Dilma Rousseff. Repetido todos os dias, aqui e no Exterior, o bordão de “Temer Golpista” foi colando, pegando e se espalhando o suficiente para converter Dilma Rousseff em vítima. Aí está o pulo do gato.

O exemplo histórico marcante também vem do Rio Grande do Sul. Getúlio Vargas, deposto um mês antes das eleições em 1945, reverteu uma vitória certíssima da oposição e venceu em todas as frentes. Ganhou a presidência da República com seu apaniguado, general Eurico Gaspar Dutra.

Tal como Dilma, Getúlio candidatou-se ao parlamento e venceu de ponta a ponta. Naquele tempo uma pessoa podia apresentar-se candidata a vários cargos e em mais de um estado. Assim, Vargas foi eleito senador pelo Rio Grande do Sul e São Paulo, e deputado federal pelo Rio Grande do Sul, São Paulo, Distrito Federal (atual cidade do Rio de Janeiro), estado do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Bahia.

Alguém duvida que Minas Gerais oferecerá uma votação consagradora à filha pródiga expelida do poder pelas forças café com leito da dupla PSDB e Minas e São Paulo e (então) PMDB paulista? Ela caiu porque já era gaúcha. Então volta às alterosas e readquire sua cidadania politicamente consequente.

É verdade que a chegada de Dilma em Minas não foi uma aterrisagem com mão de veludo, como dizem os pilotos. Foi um pouso três pontos, com um baque daqueles que deixam os passageiros com os pelos crispados, elogiando a mãe do comandante. Além do pré-candidato Virgílio, que perdeu a vez, deixou em palpos de aranha o candidato do MDB, deputado estadual Adaldever Lopes, que além de delfim do chefão emedebista local Newton Cardoso, o exuberante e folclórico ex-governador, deixou o atual detentor do Palácio da Liberdade, Fernando Pimentel, ameaçado de ser derrotado em sua reeleição pelo ex-governador Antônio Anastasia. Com Aécio no páreo, sobra apenas uma vaga. Adaldever contava com ela, mas a entrada de Dilma deixou-o no banco, fora do jogo.

Então veremos nos palanques de Minas Gerais os protagonistas da grande opereta que constituiu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Na primeira linha do ´palco os dois galãs, Aécio Neves, o príncipe decaído, derrotado por Dilma nas urnas e autor do processo judicial e das manobras políticas que resultaram na deposição da mandatária. A seu lado o conde Antônio Anastasia, algoz da princesa, relator do processo que lhe roubou o poder. E também ela própria, a princesa adormecida.

Ao fundo o coral. O grupo mais interessante é a chamada Bancada da Chupeta, aquele grupo de senadoras e do senador Lindbergh Farias que se colocaram frente a Anastasia, na Comissão do Senado, a repetir, todos os dias, incansavelmente, os mesmos bordões, ouvidos com paciência e maldade pelos líderes do movimento. Com aquela atuação, o grupo, composto ainda pelas senadoras, Fátima Bezerra, Gleisi Hoffman e Vanessa Graziottin (esta do PCdoB), botavam gasolina na fogueira do impeachment. A cada dia perdiam um aliado.

Quando o processo vindo da Câmara chegou ao Senado não havia maioria para derrubar a presidente. Bastava paciência e um pouco de negociações. Entretanto, a Bancada Chupeta preferiu ir para um confronto heroico, perdendo espaço dia a dia, até que, quando se votou, Dilma Rousseff foi mandada para casa. Entretanto, sobrou um trunfo, seus direitos políticos, que ela agora exercita com essa candidatura.

Com certeza da vitória, Dilma Rousseff já mandou fazer o vestido da posse. Os três protagonistas chegam juntos ao ato final do balé: Dilma e Aécio na mesma carruagem chegando a Brasília para assumir suas cadeiras no Senado Federal, e Anastásia pegando de volta sua caneta de todo-poderoso em Minas Gerais.

No Rio Grande do Sul, se arrependimento matasse muita gente estaria cortando os pulsos. No entanto, nada de novo. O senador Paulo Paim, do PT, e sua amena adversária Ana Amélia, do PP, retomam seus lugares no plenário da Câmara Alta, enquanto os ortodoxos do Partido dos Trabalhadores olham de longe o triunfo do antigo poste de Lula (ou posta?), dessa feita convertida numa força real e efetiva com seus próprios meios, sem padrinho nem mentor. Como Getúlio Vargas, repetiu o lema do velho caudilho em 1945: “Ela Voltará”.

Agência Digital News