23 de outubro de 2018
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Ernesto Geisel e os americanos, uma história pela metade

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Pastor alemão. Este era o apelido do general-presidente Ernesto Geisel nos seus tempos de governo, atribuído a ele pelos dois lados: à direita por seu autoritarismo irascível que atemorizava seus auxiliares; à esquerda pelo vigor de seus dentes afiados que mordiam implacavelmente.

Portanto, quando seus contemporâneos o comparavam ao temível cão de ataque, não falam de um PET de estimação, mas de um furioso e hidrófobo símbolo da ferocidade. Portanto, dizer que Geisel em algum momento de seu governo teve uma imagem paz e amor é desconhecimento da História.

Tanto seus apoiadores quanto adversários e inimigos nunca foram condescendentes com Geisel durante sua gestão. Lembra tempos duros, com extermínio de militantes da luta armada, como de adversários ideológicos. Nesses anos eliminaram-se os últimos remanescentes da guerrilha urbana, exterminaram os soldados da guerrilha do Araguaia, assassinaram os dirigentes das facções pacifistas dos partidos comunistas. O que sobrou de dissidentes foi parar na França e outros países tanto da Europa como da América Latina, África, mundo árabe e até na China e Coreia do Norte. Foi um esparramo. Onde está o bom ditador?

Geisel foi de certa forma amenizado depois do fim de seu governo e não durante a gestão. A direita democrática e parlamentar perdoou-lhe as violências como o Pacote de Abril e outros desaforos, por conta da extinção do AI-5 e da abertura.  Esquerda deu-lhe alguma trégua por seu antiamericanismo e pela sufocante estatização da economia. Só para lembrar, o BNDE (ainda não tinha o S) teve mais de mil empresas controladas, em todos os setores da economia: agrícolas, minerais, comércio e indústria, sem falar da área financeira e de serviços. Até motel era estatal, como o Motel Quatro Rodas de São Luís do Maranhão, ou as pousadas das estações hidrominerais. Aí está sua imagem um pouco restaurada depois que deixou no governo.

Na política externa enfrentou os Estados Unidos com o voto antissionista na ONU, o Acordo Nuclear com a Alemanha (O Brasil foi o Irã dos anos 1970), o reconhecimento dos países comunistas de língua portuguesa (Brasil e Cuba foram os sustentáculos de Angola) e nacionalização das indústrias de base, aço, petroquímica e insumos básicos.

O documento da CIA mostra um Geisel tal qual ele foi um general pragmático que não admitia ameaças a seu poder. Bateu nos comunistas, mas também tirou a ultradireita militar de áreas importantes. Nenhum torturador ou operador da repressão chegou a general. Entretanto, não afrouxou o chicote.

Aquele diálogo com os generais deve, ser contextualizado. É verdadeiro no sentido de que Geisel mandou bater forte. Entretanto, revela um presidente ainda indeciso, sem um projeto muito claro para a repressão à luta armada.

Geisel chegou ao governo vindo do ostracismo político, ou seja, longe dos quartéis. No final do governo Castello Branco, de que foi chefe do Gabinete Militar, foi para o Superior Tribunal Militar, o STM, como um refúgio contra seus inimigos políticos dentro das Forças Armadas. Dali, quando seu irmão Orlando Geisel assumiu o Ministério da Guerra, assumiu a Petrobrás. Na estatal desenvolveu grandes projetos, que resultaram na descoberta de ´petróleo no mar, na petroquímica, na autossuficiência em refino e na distribuição de derivados.

Chamado para o governo, sua cabeça estava longe da luta armada. Chamado ao problema naquela reunião, pediu tempo aos interlocutores para decidir o que fazer. Certamente consultou o irmão e voltou com a solução, depois do fim-de-semana: pau neles. Muito simples.

José Antônio Severo