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Escritor gaúcho diz que mau exemplo dos pais ajuda jovens a não lerem

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Edgar Lisboa, de Brasília

O escritor e jornalista gaúcho Lourenço Cazaré faz uma análise do estudo divulgado pelo “Pró-Livro” mostrando que o brasileiro lê muito pouco. A pesquisa mostra que no Brasil são 77 milhões de não leitores, dos quais 21 milhões são analfabetos. Já os leitores, que somam os 95 milhões, lêem, em média 1,3 livro por ano. Incluídas as obras didáticas e pedagógicas, o número sobe para 4,7, ainda assim muito baixo. Os números estão na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, feita com 5.012 pessoas em 311 municípios de todos os Estados em 2007.

LOurenço Cazaré2Na opinião de Lourenço Cazaré, autor de mais de 15 livros infanto juvenis, entre outros, o problema passa pela escola e também pela universidade. Ele explica que “o governo brasileiro é o maior comprador de livros do mundo. Gasta uma grana pesada com livros que são distribuídos em escolas. Por isso, o índice de leitura brasileiro é artificialmente inflado. Quando saem da escola, ao final do segundo grau, quando param de receber livros do governo, os jovens não lêem mais”

No Brasil, os universitários só lêem livros de estudo. “Depois de formado em curso superior, o brasileiro continua a não ler”, avalia Cazaré.

Para o escritor e jornalista pelotense, radicado há 32 anos em Brasília, autor de mais 40 livros, sendo 20 para o público infanto juvenil “o problema é realmente cultural. Dizer que o livro é caro não corresponde à verdade verdadeira. Antes, quando havia lojas que vendiam discos (que custavam o mesmo que os livros), os brasileiros compravam muitos discos. O Brasileiro não gosta de ler porque é algo que exige concentração, silêncio, vida interior, capacidade de abstração, de reflexão”.

“O brasileiro, como o papagaio, precisa estar sempre falando, falando pelos cotovelos”, critica Lourenço Cazaré. “E culpar o governo brasileiro pelo problema seria cretinice. O governo investe muito. Também há milhares de professores que tentam inocular nos alunos o gosto pela leitura”.

Um ponto também importante avaliado pelo escritor gaúcho é que é preciso levar em conta, principalmente, aquele dado que diz que mais de sessenta por cento dos jovens nunca viram seus pais com um livro nas mãos.

Muitos brasileiros acham que o livro é apenas uma ferramenta para conseguir melhores empregos, mais bem remunerados. Pode ser. Mas esse é o aspecto menor da leitura. A leitura é talvez o mais importante exercício intelectual a que temos acesso barato. O ser humano lê para enriquecer sua vida interior.

Todos os municípios com bibliotecas até Junho de 2010

Além de ler muito pouco, os brasileiros também não freqüentam bibliotecas. A verdade é que, de três em cada quatro brasileiros não tem o hábito de ir às bibliotecas para se atualizarem. Para reverter este quadro, ampliar o acesso ao livro e formar novos leitores, o governo federal investe na construção de bibliotecas municipais.

Segundo o diretor do Livro, Leitura e Literatura do Ministério da Cultura, Fabiano dos Santos, a meta é zerar, até junho de 2010, o número de municípios sem biblioteca. “Desde 2004, 1,2 foram implantadas. Mais mil foram modernizadas nos últimos dois anos”.

Para o diretor do Ministério da Cultura, só um acervo desatualizado e pouco atraente não ajuda. É preciso transformar as bibliotecas em espaços culturais, fazer do cartão da biblioteca um passaporte para o universo literário, e não mantê-las como meros depósitos de livros”, afirmou Fabiano dos Santos.

A pesquisa mostra que 52,8 milhões ou 55% dos leitores entrevistados informaram que, além de emprestar livros, usam as bibliotecas como ambiente de pesquisa e estudo. Já 15,9 milhões de brasileiros leitores ou 17% dos entrevistados vão às bibliotecas para ler por prazer.

Para atingir a meta de zerar o número de municípios sem biblioteca, o governo federal contratou a Fundação Getulio Vargas para fazer um mapeamento. O problema, de acordo com o diretor do Livro, Literatura e Leitura do Ministério da Cultura, é que nem todas as administrações municipais são parceiras “Ele reclama que depois de uma eleição, é comum ver a antiga biblioteca da cidade transformada em posto de saúde”.

Internet Aliada na Formação de Leitores

A internet está sendo tratada pelas autoridades da educação como aliada. O objetivo é tentar ampliar o acesso ao livro e incentivar a formação de leitores. A modernização das bibliotecas públicas inclui a instalação de centros digitais. “Nada substitui o livro. Não vamos cair na armadilha de opor a internet ao livro. Mas, inevitavelmente, a internet leva o jovem ao universo da leitura e da escrita”. O comentário é de Fabiano dos Santos, diretor do Livro, Leitura e Literatura do Ministério da Cultura.

Crianças e jovens entre 5 e 17 anos lêem três vezes mais que os adultos, mas 45% afirmam que no fazem por obrigação. Apenas 26% consideram o hábito de leitura um prazer. A pesquisa indicam que o jovem leitor não manterá o hábito da leitura depois de concluída a fase escolar.

A diretora editorial da Editora Record, Luciana Villas-Boas, avalia que, embora envolvidos com os meios eletrônicos, os jovens estão cada vez mais interessados nos livros. Segundo ela, mesmo quando já tiveram acesso ao texto na internet, o jovem não abre mão da relação física com a obra.” O livro é melhor. Além do prazer, a relação física com a obra influencia a absorção do conhecimento e os jovens perceberam isso”, assinala Luciana Villas-Boas.