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Jornalismo e isenção

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Um fato de que tomei conhecimento há pouco – plágio praticado por um jornalista – me levou a fazer uma pesquisa na internet sobre o assunto e o que eu descobri me deixou estarrecido. Embora não tenha encontrado nenhuma nota sobre a dimensão deste fenômeno, pude constatar que a pirataria eletrônica de conteúdo, especialmente na área do ensino. Vem crescendo em ritmo explosivo.

O caso que me despertou o interesse foi o seguinte. Incumbido de preparar uma reportagem, um jovem repórter entrou num site de busca e colocou o nome de uma das pessoas com as quais deveria conversar. Encontrou na página virtual de uma empresa um depoimento do cidadão sobre o assunto que investigava. Pressionado pelo curto prazo de entrega do material, uma das eternas maldições da imprensa, o jornalista resolveu construir seu texto usando declarações prestadas pelo “entrevistado” ao site da empresa na qual trabalhava. Fez isso, claro, sem falar com entrevistado e sem atribuir as informações à fonte verdadeira. Resultado: descobriu-se depois que a entrevista havia sido concedida cinco anos antes e que o cidadão já não pertencia mais ao quadro da tal empresa.

Foi o primeiro caso de plágio de internet com que me deparei nos meus mais de 30 anos de jornalismo e confesso que fiquei bastante chocado. Mas sei que, hoje em dia, o fato não é incomum. Há casos famosos de jornalistas que inventaram reportagens inteiras e que depois foram desmascarados.
Fui então para a rede, digitei “plágio na internet” e recebi uma batelada de informações. O que mais me chamou a atenção foi a questão da pirataria nas escolas, uma praga cuja incidência vem crescendo assustadoramente.

Encontrei uma bela reportagem da Zero Hora em que são listados, por exemplo, os sete sites mais procurados pelos estudantes relapsos. Em contrapartida, o jornal indica também um endereço eletrônico nos Estados Unidos em que pode ser acessado um programa antiplágio. Segundo este site, 30% dos estudantes dos Estados Unidos recorrem à copia pura e simples de trabalhos escolares.
Como é que se resolve a questão do plágio hoje em dia? A resposta é óbvia, respondem os especialistas. É preciso estabelecer nesta rede mundial que se formou há muito pouco tempo alguns valores milenares, como responsabilidade, dignidade e correção. A resposta serve tanto para estudantes quanto para jornalistas ou quaisquer outras pessoas que se utilizem da internet.

Pessoalmente, acho que precisamos refletir com maior profundidade sobre os limites éticos a serem observados pelo jornalista e pelos veículos de comunicação nestes nossos dias de rápidas transformações tecnológicas. Uma nova geração de jornalistas está sendo formada num tempo em que o sistema de produção de notícias muda vertiginosamente. Daí a importância de os professores ensinarem aos futuros profissionais de comunicação valores como ética e isenção.

Uma questão que não pode ser negligenciada é a da imparcialidade. Não interessa o meio de divulgação, o fundamental é que o conteúdo seja elaborado com isenção. A notícia precisa necessariamente conter duas ou mais opiniões sobre um mesmo tema. A imparcialidade é também a principal arma do comunicador no combate constante que deve manter para evitar o uso da imprensa a favor de quem quer que seja. Resumindo, a busca constante de informação qualificada, séria, apartidária, honesta, fiel e abrangente deve ser o objetivo de um jornalista ou de um veículo que tenha como finalidade a prestação de serviços informativos.

O ciclo do bom jornalismo pode ser desenhado com poucas frases curtas. A informação de qualidade só existe se for correta e precisa. Só é notícia o que decorre dos fatos. A divulgação dos fatos requer bom senso, disciplina e equilíbrio. Um veículo de comunicação vive de sua reputação. A credibilidade de uma empresa decorre da perseguição constante de isenção e de respeito às regras éticas da profissão. Fidelidade. precisão e compromisso de contar a verdade são fundamentais para a construção da credibilidade.

No que se refere aos jornalistas, penso que nossos dilemas foram bem sintetizados por Sidnei Basile: “quando você estiver escrevendo, não se esqueça, em primeiro lugar, de que a atividade jornalística é um exercício de integridade e caráter. Uma boa atitude, no ato de escrever, o conduzirá a elevadas atitudes na profissão – como, aliás, na vida também”.

Acabei neste artigo falando mais em jornalismo, mas a verdade é que a grande exigência dos nossos tempos conturbados é que a ética seja uma constante no dia-a-dia das pessoas. De todas as pessoas.

2 Comentários

  1. Grande Edgar Lisboa,que feliz para mim encontrar o teu site e as tuas valiosas lições para a prática do melhor jornalismo. Parabéns pela posse na presiência do Instituto Brasileiro do Rádio (IBR)e minha certeza de que farás um belíssimo trabalho, graças ao teu talento, conhecimento, experiência e dedicação.
    Um abraço e minha admiração,
    Vera Pinheiro