24 de setembro de 2018
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Tereza Cristina

Mentir dizendo a verdade

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Carlos Brickmann

Um anúncio clássico da Folha de S.Paulo mostrava como é possível, com meias verdades, contar uma medida completa. Estas eleições estão mostrando que, mesmo com verdades inteiras, é possível forjar mentiras e falsificar a realidade.

Um caso interessantíssimo acaba de ocorrer no Mato Grosso do Sul: um jornal publicou, em tom de espanto, que todos os sul-matogrossenses que voltaram a se candidatar agora tiveram patrimônio crescente, um de 25%, a maioria na faixa dos 50 a 70%, menos dois: o deputado federal Vander Loubet, do PT, réu na Operação Lava Jato pela acusação de ter recebido propina de cerca de R$ 1 milhão, e que teve o patrimônio reduzido em 65%, tadinho, de 2014 para cá; e a deputada federal Tereza Cristina, DEM, presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, cuja declaração de bens registra aumento de quase 50.000%. “Evolução fantástica”, diz a reportagem.

O leitor é induzido a acreditar que a coisa é muito esquisita. Mas quem prosseguir na leitura verá o motivo do aumento: Tereza Cristina, de família rica, é casada com comunhão universal de bens e o patrimônio do casal está na declaração do marido. Na dela, constava apenas sua renda como secretária de Estado. De lá para cá, recebeu heranças de família. Isso está na reportagem, mas bem em baixo. O título e a abertura da matéria, que atingem o grosso dos leitores, são negativos. Apenas os leitores que enfrentarem o texto inteiro terão a informação completa.

Outro caso de notícia falsa construída com verdades é o do incêndio no Museu Nacional: ainda não se sabem nem as causas do fogo, mas já se divulga que vários dirigentes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, administradora do Museu, militam em partidos de esquerda. É verdade; e que é que isso tem a ver com o incêndio? Algum deles terá desviado verbas para seu partido? Ou terá sido nomeado exclusivamente pela militância, não por capacidade? Isso não é dito; mas induz-se o público a erro.

É um tipo perigoso de agressão ideológica. Coisas desse tipo fizeram os governos militares desistir de um excelente projeto de produção de etanol a partir da madeira, tocado pelo professor José Goldenberg, porque o SNI acusava seu filho de ser comunista. E o casal de  cientistas Victor e Ruth Nussenzweig, de tanta chateação ideológica, foram pesquisar a cura da malária naquele país onde os comunistas são tão apreciados, os Estados Unidos. O Brasil perdeu dois cientistas de renome mundial? Não, perdemos três: Michel, filho de Ruth e Victor, é professor na Rockefeller University, de Nova York e membro da Academia Nacional de Ciências dos EUA.

Verdade: Ruth e Victor Nussenzweig eram comunistas (e é possível que o sejam até hoje). Será que as doentes de malária se importam com isso?

Carlos Brickmann, é jornalista