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Metade da população de uma cidade enganada

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O velho truque da pirâmide foi aplicado para enganar a metade da população de Maragogipe, famosa pelo seu carnaval, no recôncavo baiano.

Os moradores estão inconformados. É difícil encontrar alguém na cidade que não esteja se queixando do golpe.

“Eu quero saber para onde foi nosso dinheiro”. “Eu R$ 600 que não tinha visto, já tinha dado – dois mil a ela e no dia 18 eu já tinha dado mais R$ 500 reais, eu raspei a minha conta”.

cidade de Maragogipe Foto: Divulgação

cidade de Maragogipe Foto: Divulgação

Mais de 13 mil pessoas foram enganadas. Quase a metade da população de Maragogipe, recôncavo baiano. Para atrair clientes, a pirâmide, que aqui recebeu o nome de caixa cooperativa, tinha até propaganda nas ruas. “Tenha certeza que continuaremos trabalhando para manter a nossa caixa crescendo a cada dia”.

A promessa era multiplicar o dinheiro aplicado em menos de um mês. “Eu coloquei R$ 200, recebi R$ 800, depois dos R$ 800 recebi R$ 5.000. A sorte bateu na minha porta”, afirma a dona de casa, Rosenil Jesus Santos.

E sem perceber, os sortudos foram espalhando a notícia do dinheiro fácil e até quem mora nos bairros mais pobres botou em jogo o pouco que tinha.

Muitos pescadores entregaram à quadrilha da pirâmide o dinheiro que receberam do defeso deste ano. O benefício do governo federal, correspondente a dois salários mínimos, pago no período em que a pesca é proibida.

Em uma colônia, ninguém viu de volta nem a cor do dinheiro que aplicou. “Todo o meu defeso, a economia que eu tinha, está tudo perdido”, conta o pescador, Antônio Balbino.

Perdidos também estão os planos das marisqueiras. Georgina da Paixão não tinha dinheiro sobrando, mas para entrar na pirâmide vendeu até seus instrumentos de trabalho.

“Arrisquei botar minha rede, minha canoa, depois eu voltava e comprava outra. Eu fui avisada que poderia ser uma roubada, mas não quis acreditar”

E foi sonhando com o dinheiro da pirâmide que a professora, Ana Cláudia de Moraes, vendeu o patrimônio mais precioso que família tinha: a própria casa. “Eu só não estou na rua porque esta amiga me acolheu e meus filhos estão na casa da avó. Esse é o preço que estou pagando pelo golpe”.

A aposentada, Antônia Conceição Higina, era uma das pacoteiras. Assim eram conhecidos os encarregados de recolher o dinheiro dos participantes e entregar aos organizadores da pirâmide. “Arrecadava de R$ 900 a R$ 100 mil”.

A arrecadação era semanal. O único documento de garantia era um pedaço de papel, sem assinatura, com a data do recebimento do dinheiro. O caixa da pirâmide funcionava em uma casa, no centro da cidade.

Tinha até proteção de policiais militares. Quatro mulheres, de Maragogipe, são acusadas de serem as responsáveis pelo golpe. De repente, elas fecharam a casa, sumiram e não deram mais notícia.

Quando os moradores souberam as quatro mulheres já estavam longe da cidade. A casa não foi invadida porque os policiais que davam cobertura à pirâmide impediram. Um deles, à paisana, deu dois tiros para cima quando as vítimas procuraram a delegacia.

A polícia ainda não tem pistas. As mulheres podem responder por crime contra a economia popular, estelionato e formação de quadrilha. As penas podem chegar a doze anos de prisão.

O comando da polícia militar da Bahia abriu sexta-feira (4) uma sindicância para apurar a participação de policiais na proteção ao caixa da pirâmide (Jornal da Globo).

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