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O futuro da TV digital

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Em dezembro do ano passado escrevi um artigo sobre o futuro da TV digital. Quase um ano depois, os problemas identificados como entraves iniciais para a entrada do Brasil na era da TV Digital permanecem e o acesso a essa evolução tecnológica, ainda é privilégio de poucos. Confira um resumo do artigo publicado dia 7 de dezembro de 2007 no Jornal de Brasília.

O futuro da TV digital
Depois de uma discussão que se arrastou por mais de uma década sobre o sistema a ser adotado, os brasileiros entraram, no último final de semana, na era da TV digital. Dois problemas reduziram o brilho da festa. Primeiro: os conversores que permitem a recepção do novo sistema em aparelhos comuns chegaram às lojas custando mais do que o dobro do valor previsto inicialmente. Segundo: quem, apesar do preço salgado, quis comprar esse equipamento no comércio da capital paulista – cidade que recebeu a transmissão pioneira – teve que andar muito para encontrar uma unidade.

Não foi um começo tranqüilo, é verdade, mas as possibilidades que agora se abrem para o cidadão brasileiro são fantásticas. Três são as principais vantagens da transmissão digital. A mais óbvia é a excelente recepção de som e imagem, que terá a qualidade dos atuais DVDs. Como repetem os técnicos, ou se recebe bem o sinal de TV digitaI ou não se recebe nada. Parece que, em breve, daremos adeus aos chuviscos e fantasmas. Mas, como ocorre hoje como sinal dos celulares, é possível que o da TV digital não alcance algumas localidades.

O segundo fator positivo é a interatividade. Em breve, empunhando o controle remoto, poderemos interagir com as emissoras de TV. Inicialmente, será possível ter acesso a guias de programação, como já ocorre nas tevês pagas. Depois, o cidadão poderá, por exemplo, palpitar na escalação do time do seu coração, votar pelo fuzilamento de um figurante antipático do Big Brother ou até mesmo comprar uma garrafa do espumante que está sendo bebido pelo galã da telenovela. Há quem aposte que logo virão os serviços bancários (extratos, pagamentos e transferências) e a interação com órgãos governamentais – o suplício anual da entrega da declaração do Imposto de Renda poderá ser resolvido com um toque no controle.

Quanto à mobilidade, abre-se a possibilidade de que as pessoas possam, daqui a pouco, assistir televisão em aparelhos de tevê ou computadores portáteis e em telefones celulares. Aliás, a tevê portátil não teve grande mercado no Brasil porque nunca se conseguiu obter uma boa imagem quando, por exemplo, num veículo em movimento.

Penso que uma das maiores conquistas virá se os brasileiros – que nunca aderiram ao hábito de ler nos ônibus, quase sempre superlotados e aos solavancos por ruas esburacadas – puderem ver jogos de futebol, novelas ou notícias na ida ou na volta do trabalho. No caso dos noticiários, será um belo exercício de cidadania se pessoas que normalmente não têm acesso à informação puderem se inteirar sobre o que ocorre no País.

No caso da mobilidade ou portabilidade, sem dúvida, a explosão deve se dar na transmissão para ceIuIares. As emissoras já podem transmitir, mas o problema é que os telefones especiais necessários para a recepção ainda não estão à venda. Considerando o número estratosférico de celulares existentes no Brasil é possível prever uma verdadeira explosão na sua utilização como receptores.
Durante 12 anos, discutiu-se no Brasil se deveríamos adorar o modelo americano, o europeu ou o japonês. Centenas de cientistas, jornalistas, acadêmicos e industriais buscaram o sistema mais adequado às condições brasileiras. Para o governo, a maior preocupação era com o possível uso da TV digital no campo da educação. É uma decisão discutível porque, segundo pesquisas, apenas 31% dos espectadores brasileiros admitem assistir programas considerados educativos. E a maioria deles considera chata e aborrecida qualquer programação didática.

No final, o governo brasileiro optou pelo modelo nipônico argumentando não só que era o de melhor qualidade e custo mais baixo, bem como traria junto investimentos de empresas nipônicas. No entanto, as inversões ainda não se concretizaram. De outro lado, os nossos parceiros do Mercosul não aderiram ao sistema oriental, o que baratearia os custos, como previam os tecnocratas brasileiros. Para especialistas, esses dois fatores concorreram para que os conversores estejam custando mais de RS 500 quando o governo imaginava que poderiam ser adquiridos por R$ 200.

É extremamente difícil vislumbrar, no intrincado cipoal de informações com que nos brindaram jornais e revistas brasileiros, o futuro da TV digital. Afinal, trata-se de uma novidade que vai movimentar cerca de R$ 100 bilhões nos próximos anos. Olhando-se para trás, vê-se que, em 50 anos, os brasileiros criaram e enraizaram um magnífico sistema de televisão, que cobre hoje todo o nosso território. Temos também várias redes de televisão que nada devem a similares da Europa e dos Estados Unidos. Agora, quando entramos para o restrito clube das nações que dispõem de transmissão digital,o que se espera é que também nessa nova tecnologia os brasileiros consigam reproduzir o desempenho brilhante que tiveram com a televisão analógica.