O Laranjão vai à Feira do Paraguai | | Edgar Lisboa
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O Laranjão vai à Feira do Paraguai

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*Aqui você vai conhecer o Laranjão. No meio jornalístico se reconhece “laranja”como aquela pessoa que utilizam para se colocar a culpa. Um retrato do cidadão brasileiro em si. Suas qualidades, suas virtudes, seus defeitos, seus dramas. Sou eu, é você. Na rotina, no inesperado, não interessa, sempre é ele o culpado de tudo que acontece à sua volta.

Em Brasília, o Laranjão vai à Feira dos Importados. Em outras cidades brasileiras ele iria à Feira do Paraguai. Ele está atrás de um celular para 2 chips, com TV junto e que dá para baixar música da Internet. O porteiro dele, o Zé, tem um. Esta barato. Ele quer comprar um igual.

Fica pensando sozinho: “Ué, todo mundo contra a pirataria e aqui, além de ser capital do país, onde se fazem as leis, muitos produtos não são originais e ainda ganho nota fiscal? Legal. Ilegal. Não sei. Se está dentro da lei, que legal que é”, pensa ele meio confuso.

O Laranjão caminha devagar entre os boxes, olhando uma a uma as vitrines.

Um cidadão com bigode e cara de paraguaio (ou coreano, sempre tem um quando o assunto é eletroeletrônicos) lhe chama.

“- Que quieres, amigo. Celular, pilhas, TV digital, mp3, G5?”

“- Eu queria ver um celular que tem TV e dá pra colocar 2 chips”, responde O Laranjão.

“- Que colore? Branco, prieto, azul torquiesa, rojo?”, pergunta o vendedor com um sotaque que mistura castelhano, português e coreano.

“- Pode ser preto. É original?”, questiona O Laranjão.

“- Que pergunta, é lerrrrrrrrítimo, lerrrrrrrrrrrítimo”, sorri escancadaramente o vendedor Made in Falsification coçando o bigode.

O Laranjão pega o celular, olha, desmonta a bateria, recoloca. Liga o aparelho.

A língua está em espanhol e não existe a opção de mudar o idioma. Ele diz isso para o vendedor.

“- El idioma muda-se automáticamiente quando lo sênior sair daqui. Só chegar pierto de uma antena de celular que ele reconiece o aparielho e muda para o portugues, fique tranquilo, tranquilo”, faz cara de simpático o coreano-paraguaio.

“- Quanto é?”, pergunta meio desconfiado O Laranjão.

“- Cento e cincuenta realitos, solamente”, alegra-se o vendedor.

“- Mas nas lojas esse mesmo aparelho custa mil reais”, assusta-se O Laranjão.

“- Venha cá um minutito”, diz o vendedor puxando O Laranjão para o cantinho do balcão. “- É que esse é promoción, só tem mais 3 aparelitos desse. E ainda ganha um pastel e um caldo-de-cana na banca do Ozélio ali na frente. Parceria, amygo. El mundo é de los parceros. Por isso que todas las grandes empresas em el mundo se parceriam. Parceros. Petroleos Ipiranga com La Petrobras, Antartica e Brahma, Coca-cuela e La Pepsi. Parcerias, amygo”, sorri novamente o santo moço.

“Mas a Coca-cola e a Pepsi não se fundiram. São concorrentes”, conserta O Laranjão.

“- Por enquánto, por enquánto”, diz feliz o Brad Pitt falsificado.

“- Tá bom, vou levar”, agradece O Laranjão feliz-da-vida esquecendo de pegar o vale-caldo-de-cana-e-pastel.

Duas da manhã. Chuva fraca. O Laranjão dá várias voltas caminhando ao redor de uma antena de telefonia celular que fica em frente ao seu prédio. Levanta e abaixa o celular em vários ângulos. Lê-se no visor intermitente em espanhol: “Configuración ok”.

Blog Edgar Lisboa