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O Laranjão vai à igreja

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O Laranjão vai à igreja

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O Laranjão nunca foi muito ligado à religião. Na sua família alguns eram católicos, outros evangélicos, outros espíritas, outros budistas, outros do candomblé, outros ateus.

Ele estava esperando abrir a agência bancária e resolveu nesse meio tempo entrar em uma porta metade igreja, metade templo.

“Mal não pode fazer”, pensa ele.

Senta-se nos bancos ao fundo e senta-se ao lado dele um fiel administrativo dessa igreja.

Atrás dos dois senta-se um bêbado com um jornal velho nas mãos.

O fiel administrativo do templo: “- Pois veja bem, irmão. Ajudamos os necessitados, garantimos alimento para os mais carentes, auxiliamos os que foram menos favorecidos”, diz ele para o Laranjão.

“- Pequenas igrejas, grandes negócios”, sussurra o bêbado no banco de trás e depois tosse roucamente.

“- E o que custa isso? Nada, praticamente nada. Um pequeno auxílio seu que não vai fazer falta e mais tarde vai ser recompensado pelo Criador”, continua o fiel.

“- Pequenas igrejas, gigantes negócios”, ri-se sozinho o bêbado.

O Laranjão presta atenção e sente uma leveza na alma.

O fiel abre um sorriso e continua.

“- Uma moedinha por dia, uma nota de R$ 10 por dia. O que vai lhe fazer falta? Poderia gastar em coisas fúteis. Em bobagens. Pelo menos doando esse dinheiro vai ajudar um semelhante. Poderia gastar errado em festas. Mulheres. Bebida.”, diz o fiel financeiro administrativo.

“- Opa, dessa eu gosteeeiiiii”, fala sussurrando no ouvido mas muito alto o bêbado para o Laranjão. “- Pequenas igrejas, faraônicos negócios”. E soluça o bêbado.

O Laranjão tira uma nota de R$ 20 da carteira e entrega para o fiel administrativo.

“- Não, não, não é para mim. Coloque ali no Cofre da Salvação. É lá que fica. Não para mim.”, aponta para um cofre grande o fiel.

“- Caraaaaaca. Eles tem cofreeee?”, olha torto o bebum para o cofre.

O Laranjão vai até o cofre e coloca a nota dentro.

O fiel pergunta para outro fiel administrativo bem baixinho no ouvido onde está a chave do cofre que ele não estava achando. Ele tira a chave do bolso e entrega. Ele coloca agora no seu bolso a chave do Cofre da Salvação.

O Laranjão olha para o relógio e vê que o banco já abriu.

Atravessa a rua e entra na fila das pessoas que estão entrando na porta-giratória.

Um pouco antes dele entrar, o bêbado encontra ele na fila.

“- Putzzzz, vai doar todo dinheiro?”.

Aqui você vai conhecer o Laranjão. No meio jornalístico se reconhece “laranja” como aquela pessoa que utilizam para se colocar a culpa. Um retrato do cidadão brasileiro em si. Suas qualidades, suas virtudes, seus defeitos, seus dramas. Sou eu, é você. Na rotina, no inesperado, não interessa, sempre é ele o culpado de tudo que acontece à sua volta.