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O Que significa ser “terrivelmente” evangélico? (Peniel Pacheco)

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Peniel Pacheco

É certo que vivemos no mundo das adjetivações. Na chamada comunicação moderna encontram-se expressões, as mais inusitadas, para denominar coisas ou sentimentos: “estou perdidamente apaixonado!” Ou: “vc me mata de rir!” São apenas alguns exemplos de como expressões de cunho negativo podem servir para dar maior contundência ao que se pretende externar.

O cinema, por exemplo, cunhou a expressão “meu malvado preferido” que até serviu de mote para atribuir ao Cunha a alcunha de “herói” do Brasil.

Surge agora um novo emprego para o termo “terrível”. Sabe-se que, em um sentido normal,  algo terrível tem a ver com tragédia ou sofrimento: “aconteceu algo terrível!” “Jesus sofreu agruras terríveis para nos salvar!”

O Presidente Bolsonaro se valeu do termo para alcunhar o pretenso futuro candidato a ministro do STF como sendo uma pessoa “terrivelmente” evangélica.

Tal expressão seria apenas mais uma das muitas adjetivações, caso não se tratasse de um segmento que merece ser minimamente respeitado, não por seu potencial eleitoral – como, ao que tudo indica, parece ser a intenção – mas pelo que, na essência, significa ser evangélico.

Para esclarecer o meu ponto de vista recorro a duas expressões que são consideradas totalmente inapropriadas, justamente por carregarem um forte componente preconceituoso contra grupos étnicos. Trata-se da expressão “judiar” – que tem a ver com os sofrimentos impingidos a judeus; e “denegrir” – que se refere a atribuir à alguém as características do negro. Tais expressões são proibidas em redações de jornais justamente por serem consideradas politicamente incorretas.

Não é diferente quando se pretende realçar os valores religiosos, sejam eles quais forem, com expressões que são, para se dizer o mínimo, antagônicas ao sentido original do termo.

O Evangelho é visto por seus seguidores como conjunto de preceitos áureos destinados a resgatar o ser humano da terrível condição  de perda de vínculo com o Criador – daí a concepção de religião – literalmente: religação.

Terrível, portanto, seria o estado antievangélico e não o seu realce! Logo, cabe indagar o que significa ser alguém “terrivelmente” evangélico? Se for evangélico, não deveria ser terrível. Se for terrível, talvez nem seja evangélico – pelo menos se considerarmos a conceituação correta da palavra!

Ademais, não se imagina que o STF precise de alguém “terrivelmente” evangélico, basta que seja impecavelmente ético e justo! Caso contrário corremos o sério risco de transformar a Suprema Corte em algo terrivelmente sectário!

Peniel Pacheco é pastor e professor