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Política Externa é ponto de tensão entre o vice-presidente e os filhos de Bolsonaro

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José Antônio Severo

Mais lenha na fogueira. A visita do vice-presidente Hamilton Mourão à China, agora em maio, tem vários ingredientes para inflamar a polêmica com os filhos do presidente. Embora seja uma missão de rotina, enquadrada dentro dos tratados e protocolos bilaterais, será encarada perigosamente como mais uma ação de desmonte da política externa do chanceler Eduardo Araújo,

Aí está uma das principais fontes do atrito entre o vice e os familiares do presidente Jair Bolsonaro. Isto ficou claro quando um dos ataques (ou contra-ataques, na visão dos rapazes) ao general Mourão deixa escapar que grande parte da irritação vem de sua atuação para botar panos quentes no relacionamento com Caracas. Os fundamentalistas do segmento atribuem a Mourão e, por extensão, aos militares do governo, a desmobilização dos ânimos para uma intervenção na Venezuela.

Os generais do governo deixaram bem claro que não repercute bem nas Forças Armadas a ideia de colocar-se em pé de guerra contra um país vizinho. Entretanto, um ponto importante da nova política externa é colocar-se ao lado dos Estados Unidos em áreas “quentes”. Se para isto seria importante um gesto como o reconhecimento der Jerusalém como capital de Israel, muito mais apropriado a um país sul-americano que nem o Brasil, para conseguir protagonismo mundial, até decisiva, seria uma ação de alta virulência na sua área de influência. Neste caso o Brasil estaria em posição de protagonista.

Não significa que se imagine mandar as tropas atravessarem a fronteira venezuelana, mas apenas permitir se se arme um dispositivo com credibilidade no território brasileiro capaz de chamar o líder Nicolás Maduro às falas ou gerar sua deposição por forças internas. Seria uma grande vitória para a essa vertente.

Missão no Oriente

A missão do vice-presidente ao Extremo Oriente não está ligada às relações com a Venezuela. Embora a China esteja patrocinando maduro, as agendas em Pequim (o único destino de Mourão), estão ligadas a um profundo e extenso relacionamento que vinha de muitos anos. A pauta retoma um protocolo de vice-presidentes que esteve interrompido porque, com a queda de Dilma Rousseff e a ascensão do vice-presidente Michel Temer à presidência, o processo foi interrompido. Os chineses não aceitaram outra fórmula, e as reuniões se deram a nível de chanceleres. Agora voltam aos vices.

Essa agenda inclui cooperação científica, espacial, ciência, tecnologia e, até comercial e econômica. Justamente nessas áreas está se produzindo a fissão entre os governos de Pequim e de Brasília, com a nova política externa. Portanto, é gasolina para bora no alimentar a fogueira. Diga-se o, que se disser em entrevistas e declarações, Mourão será admoestado no Palácio do Planalto, onde cresce um movimento de pressão para a esterilização ou, no mínimo, congelamento do vice-presidente. Isto explica a campanha do guru Olavo de Carvalho contra o vice e, já avançando, contra outros generais. O segmento militar do governo é um estorvo a alguns projetos da política externa, que objetivam, no fim e ao cabo, projetar o Brasil na proa dos acontecimentos mundiais. Hoje Tromp e Bolsonaro são figuras de mesmo porte como desafetos da mídia mundial.

Carvalho é um aríete para atacar os portões da fortaleza. Afinal, ele não é membro do governo, não é parlamentar nem político atuante (sequer vive no Brasil) não está dentro de nenhuma igreja ou corporação. Tampouco é membro de sangue da família presidencial. Na verdade, intitula-se apenas um filósofo, um guru, um astrólogo. Está livre e desimpedido para dizer o que quiser. OU não? De onde viria tanta força?

José Antônio Severo é jornalista