22 de outubro de 2018
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Por que o Rio Grande tem tantos candidatos a vice-presidentes - Blog Edgar Lisboa. Foto: Reprodução/Internet

Por que o Rio Grande tem tantos candidatos a vice-presidente

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Os gaúchos desbancaram os mineiros: neste ano, todos os candidatos e candidatas competitivos a vice-presidentes da República são do Rio Grande do Sul. Isto desmente a regra que vem desde a República Velha: com poucas exceções, os candidatos paulistas historicamente traziam consigo políticos de Minas Gerais. Desta vez trocaram a taça de café com leite de vaca por outras com leite de soja.

Todas as candidaturas relevantes têm vices gaúchos: Geraldo Alckmin, de Pindamonhangaba, traz Ana Amélia Lemos; O paulistano Fernando Haddad, regra três da chapa improvável de Lula da Silva, vêm de Manuela D’Ávila; o capitão Jair Bolsonaro, filho de Campinas, chega como general Antônio Hamilton Mourão; e também o candidato do governo e do maior partido político do País, o MDB,  Henrique Meirelles, nascido em Anápolis, Goiás, mas paulista de coração, pois foi em São Paulo que fez política estudantil, graduou-se engenheiro pela Escola Politécnica da USP e fez toda sua carreira  o sistema financeiro, que chegou até a presidente mundial de um dos maiores bancos deste Planeta, o Banco de Boston, leva na garupa o caxiense Germano Rigotto.

Ainda falando de gaúchos, vale citar o eterno candidato José Maria Eymael, do PSDC, natural de Porto Alegre, que mais uma vez se apresenta às urnas como opção para a direita católica, ocupando esse espaço para a Igreja, que tem maior visibilidade nas facções de esquerda.

As candidaturas das gaúchas Ana Amélia e Manuela chegaram nesta segunda-feira à imprensa como apelos a determinados nichos, como as desencantadas mulheres brasileiras, que representam a massa de indecisos ou votos em branco.

Rigotto entra na chapa para dar credibilidade emedebista a Meirelles, um neófito que já passou por todos os partidos e trabalhou para os rivais nesta jornada como presidente do Banco Central.

O general Mourão, embora gaúcho e oficial da Arma de Cavalaria, não tem qualquer vinculação à identidade geográfica ou eleitoral desse sentido: ele chega para definir a cara da chapa, sem meias palavras, atacando de frente os chavões politicamente corretos e dizer alto e bom som que no governo deles a segurança púbica (e não a segurança política, note-se bem sem confundir) é o único alvo da futura administração. Doa quem doer.

Mas esta enxurrada de vice-presidentes não é só isto. Cada uma desses nomes representa mais de um objetivo político-eleitoral, tanto regional quanto nacional.

A candidatura mais vigorosa é de Ana Amélia, que chegou à convenção do PSDB, sábado, em Brasília, como a tábua de salvação de Geraldo Alckmin, dando-lhe uma consistência que ainda não havia conseguido. No plano regional, a senadora gaúcha marcou outro tento: ela vinha declarando que não concordava com o PP no apoio a Jair Bolsonaro, posicionando-se como independente, enquanto seu partido dando apoio ao capitão, avançava com a candidatura a governador do deputado federal, Carlos Heinze.

Deixando a vaga de senadora, Ana Amélia abriu espaço para Heinze abandonar o barco de Bolsonaro e entrar o seu lugar integrando a chapa forte do tucano Eduardo Leite, tida como favorita para bater no segundo turno com o governador José Ivo Sartori. Resumo da manobra: Jair Bolsonaro perdeu seu palanque no Rio Grande do Sul. Manobra bem-sucedida do candidato Geraldo Alckmin.

O mesmo fez o ex-governador paulista em Brasília, onde mexeu as pedras do xadrez local compondo suas forças em dois palanques. Alckmin já tinha o apoio da chamada Terceira Via, liderada por seu aliado Cristovam Buarque (PPS) com o nome do deputado federal Rogério Rosso para o governo do DF.

A outra força, liderada pelo candidato do PSDB, deputado Federal Izalci Lucas, também era muito forte, com trabalho de base efetivo e uma legião de cerca de 200 candidatos a deputados distritais e federais agitando bandeiras nas ruas.

Esse grupo de tucanos foi convencido pelo candidato presidencial a abrir mão da cabeça da chapa distrital, absorvendo o líder bolsonarista, o deputado federal Alberto Fraga, do PR, que tem o apoio do grande cacique do DF, o ex-secretário Jofran Frejat. Com a adesão de Fraga. Bolsonaro perdeu o palanque em Brasília, pois seu grupo, que era liderado pelo atual candidato da nova coligação, passou-se para o palanque tucano. Seu líder local, Izalci Lucas, disciplinadamente, alojou-se numa candidatura ao Senado como puxador de votos para Fraga, escudado em sua força eleitoral que é sua imagem de administrador.

Um a um, Alckmin vai tirando a frente a ameaça de Jair Bolsonaro, indicando que seu adversário no segundo turno será o candidato do PT, Fernando Haddad. Hoje foi anunciada a adesão do DEM de Minas Gerais, garantindo palanque único ao tucano naquele estado.

A outra candidata gaúcha, Manuela D’Ávila, ainda não oficializada, também atende a objetivos estratégicos da esquerda, no sentido de unificar essas forças para levá-las ao segundo turno. Dividida, a esquerda poderia ser batida pela ultradireita da dupla Bolsonaro/Mourão e, num segundo turno, ter de tapar o nariz e votar em Alckmin para impedir a vitória final de seus arqui-inimigos verde-oliva.

O PCdoB desde a defecção, por razões programáticas, segundo disse, de seu líder histórico Aldo Rebello, em agosto do ano passado, ficou sem um nome nacional. A deputada estadual gaúcha, boa de voto em seu estado e com uma oratória poderosa, foi a solução encontrada para levar ao lado do PT um nome reconhecido ideologicamente e com capacidade de atuar no nicho feminino que está a descoberto.

Já o ex-governador Germano Rigotto chega para reforçar e dar identidade à candidatura do ex-ministro encarregado de defender o legado do atual presidente Michel Temer.

Rigotto e Ana Amélia deixam espaços importantes no cenário eleitoral do Rio Grande do Sul para entrarem nas eleições nacionais. Ana Amélia era tida como certa sua reeleição para mais um mandato no Senado Federal. Rigotto era também um candidato muito forte para bater chapa contra o senador do PT Paulo Paim. Com isto, o líder petista fica livre para conquistar sua reeleição.

A novidade é a troca de Minas Gerais pelo Rio Grande do Sul, com nomes fortes do campo conservador, Ana Amélia e Rigotto. Isto de certa forma, revela uma mudança nas composições políticas das forças econômicas. Nos tempos da República Velha, Minas Gerais, que tinha o maior eleitorado, dividia o poder com São Paulo, com a hegemonia econômica do café. Era o “Café com Leite”, estereótipo consagrado no samba de Noel Rosa, pois a verdadeira força de Minas também vinha de sua lavoura cafeeira.

Isto mudou. O agronegócio pede passagem. Agora entra a soja, que do Rio Grande do Sul se espalhou pelo Brasil. O gaúcho rural é a cara da soja. Essa leguminosa chinesa empurra Ana Amélia e Rigotto. Já o velho e tradicional café continua dando as cartas, pois todos os candidatos viáveis vêm o Planalto Paulista, inclusive o irrequieto Ciro Gomes, conterrâneo de Alckmin, nascido em Pindamonhangaba, no histórico Vale do Paraíba.