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Porque a Pastoral Afro-Brasileira é vítima Frequente de Intolerância Religiosa ?

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Guilherme Botelho Júnior

guilherme-botelho-juniorEste questionamento é uma constante nas nossas visitas missionárias Brasil afora, quando Agentes de Pastoral Afro nos apresenta relatos dos mais variados, das adversidades por eles sofridos diretamente para por em prática suas vocações religiosas, e/ou ao verificar a animosidade demonstrada por cristãos católicos através das redes sociais e dentro das Igrejas velada ou explicitamente, comentando preconceituosamente a nossa forma de ser Igreja.

A Pastoral Afro-brasileira, com foro na CNBB, é fruto e gesto concreto da Campanha da Fraternidade de 1988: Povo Negro – Ouvi o clamor deste Povo. Esta pastoral é referendada em documentos e estudos da mesma CNBB, e dos CELAM. Apesar destas referências, nosso seguimento religioso não tem e não leva vida fácil, e, podemos afirmar que se trata de um movimento repudiado pela Igreja no Brasil, por parte de membros desta própria Igreja. Inclusive por muitos que se dizem e são reconhecidos como pastores desta Igreja, e até instituições religiosas, negando em verdade ao Agente de Pastoral Afro, seu carisma, sua integração e sua especifica vocação e seu agir, deixando no ar, o hiato: e a Igreja da Misericórdia?

A Pastoral Afro-brasileira nasceu sob o missionarismo profético de Padre Toninho – Orionita – e outros próceres; nossa caminhada tem sido sistematicamente obstaculizada por todo tipo de proibição, que vem desde a proibição do uso do Atabaque, até a utilização do espaço celebrativo (igreja). Nossa sobrevivência se dá por conta do nosso estoicismo e da forte resistência herdada das Irmandades e CEBs.

Ao longo destes 28 anos, temos sofrido processo absurdo de destruição e de negação, e o que é mais triste, tornamos a mencionar, vinda de membros da Igreja Católica, ou seja, é o chamado fogo amigo, pois, querem a todo custo, colocar nas nossas cabeças a pecha da endemonização. Observe, não creia nos nossos testemunhos, entre na Internet e digite a palavra mágica: MISSA AFRO, e lá verás o tamanho do tsunami da intolerância religiosa contra a Pastoral Afro-brasileira. Será este um agir cristão? Como devemos interpretar teologicamente: a cabeça é Cristo, e os membros somos nós?

Os nefastos “julgadores” se agarram na nossa forma de celebrar, e ousamos afirmar que basta ler o SALMO 150, sem nenhuma exegese, para entender com clareza a natureza das Celebrações no Rito Romano Inculturado em Estilo Afro-brasileiro.

O sectarismo dentro do cristianismo católico, nos leva a crer ser mais viável o dialogo com outras denominações religiosas, do que o dialogo nos CPPs. Os intolerantes desconhecem o texto de Jo 15,4, e provoca sofrimento e perseguição, ferindo seus fieis, e a unidade da Igreja.

Entretanto, nosso entendimento a respeito desta matéria, não se resume apenas aos intolerantes, questionamos também nossas lideranças clericais e religiosas, que não se manifestam diante desta situação, nem exige um posicionamento da CNBNB, deixando a impressão de que com seu silêncio, concordam com esta injustiça. A última ação de intolerância, se deu quanto no primeiro dia da novena de Nossa Senhora Aparecida, a imagem da Conceição, foi entronizada na Basílica pelas mãos de Agentes de Pastoral Afro da região do Vale. O achincalhe foi terrível, basta acessar as redes sociais, e tomar conhecimento do que nossos irmãos católicos ousaram dizer, em nome de Cristo.

Diante do exposto, na esperança de que este testemunho desabafo não caia no vazio das lamentações, nem um grito no deserto, sugerimos as Pastorais Afro-brasileiras e todas as Entidades Negras Católicas, coloquem como primeiro ponto de reflexão em suas pautas de formação e reunião, a luta contra a malfadada intolerância religiosa que nós sofremos dentro da Igreja Católica no Brasil, da qual somos PROTAGONISTAS.

Nós Agentes de Pastoral Afro, repelimos estas divergências e conflitos, pois almejamos comunitariamente testemunhar a graça misericordiosa de Deus, que se tornou visível em Cristo crucificado e ressuscitado. Apelamos também a todas Entidades Negras Católicas para que sejam corajosas e criativas, alegres e cheias de esperança no nosso compromisso de prosseguir na grande aventura que nos espera, pois, somos detentores da estranha e peculiar mania de ter uma fé inquebrantável na vida.

Paz e bem Afro.

Guilherme Botelho Júnior é teólogo e historiador