16 de dezembro de 2018
Inicial / Repórter Brasília / Saia justa de Blairo Maggi para explicar Carne Fraca a gigantes do turismo mundial.

Saia justa de Blairo Maggi para explicar Carne Fraca a gigantes do turismo mundial.

Print Friendly, PDF & Email
Mauro Maggi, ministro da Agricultura

Deus é brasileiro, diz um ditado quase esquecido para justificar a sorte que salva do fracasso as gestões improvisadas tão comuns no País. Parece que uma vez mais o Criador afagou a cabeça do “Gigante Adormecido” e o acaso pode tirar uma parte relevante da economia de exportação brasileira da mesma segunda sinuca de bico que arruinou a imagem do agronegócio tupiniquim entre os consumidores mundiais. O monstrengo da voltou com suas caretas assustadoras.

É o caso da devastação de imagem provocada pela chamada Operação Carne Fraca nos mercados das carnes brasileiras. Bem na hora em que a retomada de prisões e ações espetaculares em frigoríficos das regiões produtoras mais afamadas do planeta, abre-se ao país uma fresta para desqualificar a pressão negativa desse escândalo planetário sobre nossas picanhas, costeletas e sobrecoxas.

Essas as denúncias abalam a confiança não só dos importadores, mas também de comerciantes atacadistas, donos e chefes de restaurantes e, pior ainda, do consumidor final. Ninguém se deixa enganar nos países civilizados. Os clientes do Brasil, querem saber tudo sobre a comidinha que vai daqui para botarem bocar à dentro.

Pois bem agora que o céu desaba em chuvas e trovoadas, chega ao País alegremente uma missão organizada pelo prestigioso Instituto Interamericano de Cooperação para Agricultura IICA), que corresponde à FAO na Organização dos Estados Americanos (OEA), frente à uma delegação dos consumidores mais exigentes do Planeta, os paraísos fiscais e turísticos do Caribe, a maior concentração de resorts e de turismo de alto preço do mercado mundial de milionários e de classes médias abonadas.

A OEA traz a Brasília, segunda-feira,  11 ministros desses países que importam alimentos sofisticados e em quantidades relevantes, mas fora na América do Sul, embora o Cone Sul do nosso subcontinente (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) seja hoje considerado o “celeiro do mundo”.

A vinda dos caribenhos acendeu um sinal vermelho nos fornecedores do resto do mundo. As agências internacionais já estão noticiando. Reuters, EFE, Blumberg e outras menos votadas já deram o alerta de que algo de novo acontece ao lado de baixo do Equador. Muita gente está com medo de perder seus clientes, como já ocorreu com os demais compradores mundiais de nossos agronegócio, que deslocou dos mercados produtores tradicionais.

Mas a missão não veio por causa da Carne Fraca. A visita estava programada há meses, mas caiu justamente no lugar certo na hora certa. É o que parece.

O novo diretor geral do IICA, o argentino Manuel Otero, graduado veterinário, mas considerado um cientista relevante na área da zootecnia, organizou a missão, para mostrar a esses integrantes da OEA os avanços científicos na região, com visitas à EMBRAPA e INTA (equivalente argentino) e à maior mostra do setor da Argentina, a Feria de San Nicolás.

No meio disso, os centro-americanos vão iniciar negócios que podem chegar a bilhões de dólares para importar carnes, cereais e alimentos em geral (especialmente orgânicos), com objetivo de consolidar a “segurança alimentar” em seus países. Isto é o que diz Manuel Otero.

Para além desse objetivo comercial e estratégico, Manuel Otero diz que essa iniciativa vai incorporar esses grandes consumidores no relacionamento sul/sul, através do incremento do comercio internacional. É o que estão chamando de “agrodiplomacia”. Ou seja: acrescenta-se aos negócios um forte conteúdo político. Isto já aconteceu com os manufaturados e a construção civil brasileiros, que foram instrumentos de realização de política externa pelo Itamaraty e que tantos dissabores vêm causando aos envolvidos na Operação Lava Jato.

A missão da OEA traz ao Cone Sul, começando pelo Brasil, o maior formigueiro de turistas do Hemisfério Ocidental. Vêm com ele os ministros das Bahamas, Jamaica, República Dominicana, Antígua e Barbuda, São Cristóvão e Nevis, São Vicente e Granadinas, Santa Lúcia e Dominica, além dos emergentes (turisticamente) Haiti e Suriname.

Esses destinos são sobrevoados diariamente por enxames de jatinhos, voos charters e de carreira levando os endinheirados do mundo à procura de praias, ondas gigantes, mesas de jogo, e, principalmente, boas comidas. Esses clientes são exigentes, querem saber tim-tim-por-tim-tim o que está no seu prato, de onde vem e como e por quem foi cultivado (por exemplo, trabalho escravo ou infantil são banidos – sem falar dos defensivos e tratos culturais).

Os marqueteiros do senador Blairo Maggi, ministro da Agricultura estão em palpos de aranha para explicar aos caribenhos que nossas comidas são sadias e bem plantadas. O mesmo estarão fazendo nossos sócios do Mercosul nos próximos dias.

Entretanto, de todos, somente o Brasil está numa saia justa, pois os fiscais e policiais fecharam e prenderam dirigentes de quatro frigoríficos. É um grão de areia. Mas é o que basta. Esse perigo abala o Centro Oeste, mas respinga para todo o Brasil e também para os vizinhos do Cone Sul, pois ainda há muita gente pelo mundo que acha que a capital do Brasil é Buenos Aires.

Já a questão social, que também importa, será explicada pelo ministro do MDS, Osmar Terra, incluído na agenda para falar de reforma agrária (especialmente de agricultura orgânica nos assentamentos) e de trabalho rural.

A visita inclui reuniões detalhadas com a Embrapa, onde dois temas interessam especialmente: técnicas de compostagem (adubos naturais para horticultura – a única produção local nesses países) e cultivo de coqueiros. A palmeira, árvores do coco, é resistente a furacões. No Caribe a agricultura e silvicultura não prosperam por causa desses cataclismos.

O Brasil detém uma tecnologia avançada de coqueiros desenvolvida no Centro de Pesquisas Agroflorestais do Amapá (CPAF/AP) e Embrapa Tabuleiros Costeiros. Desperta especial atenção os coqueiros anões aperfeiçoados pelos biólogos brasileiros.

A coincidência com o refluxo da Operação Carne Fraca não deixa de ser uma coincidência interessante, pois se o Brasil não estive sob a lupa dos importadores internacionais, a visita dos caribenhos ficaria na vala comum das missões comerciais. Entretanto, como a agropecuária internacionalizada está na berlinda, o mundo inteiro está acompanhando as andanças dos mestres do turismo. Essa gente é referência. E assim o ministro Maggi pode fazer sua limonada. Como dizia o Conselheiro Acácio: “Há males que vêm para bem”.

blogedgarlisboa / José Antônio Severo