Sexta-feira, 26 de junho de 2009 | | Edgar Lisboa
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Sexta-feira, 26 de junho de 2009

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Gaúchos na Amazônia II

Auler, Beckman, Ciscato, Fochesatto, Gallina, Lorenssetti, Lubke, Marmentini, Mazarello, Meinhardt, Miranda, Neitzel, Rohleder, Rossato, Scheuffele, Silveira, Tezoni,Winck.

Ao ler esses sobrenomes, o leitor julgará tratar-se da lista telefônica de uma típica cidade sulista, de população originária da imigração alemã ou italiana. Nada disso! São moradores de Humaitá, cidade com aproximadamente 40 mil habitantes, localizada no cruzamento das rodovias BR-319 e Transamazônica, no Sul do Amazonas.

No entanto, essa gente de pele clara e olhos azuis saiu de Jaguari, Novo Hamburgo, São Borja, São Luiz Gonzaga, São Vicente do Sul, Tucunduva, Tuparendi e de muitas outras cidades da região Sul.

Em pesquisa informal feita com esses gaúchos ou descendentes, é possível classificá-los em dois grupos: os “não radicados” e os “radicados” na região.

O primeiro grupo, em sua maioria, é constituído de funcionários públicos, civis e militares, que trabalham em vários órgãos da administração federal ou instituições, como Incra, Ibama, Exército, entre outros. São servidores que não criam raízes no local devido às constantes transferências impostas pela profissão.

No segundo grupo, temos as pessoas (e até famílias inteiras) que deixaram para trás tudo o que haviam conquistado, para tentar uma nova vida numa região distante, inóspita e selvagem, quase sempre sem apoio governamental. A maioria saiu do Sul nas décadas de 1970 e 1980 do século passado. São agropecuaristas, empresários, comerciantes, mecânicos, motoristas e outros profissionais que se estabeleceram na cidade e hoje estão plenamente integrados aos costumes locais, bastante enriquecidos pela mistura das culturas amazônica, nordestina e gaúcha. Muitos casaram com típicas caboclas amazonenses e quase todos os filhos (média de dois por casal) nasceram fora do Rio Grande.

Histórias de pioneirismo, desbravamento, coragem, renúncia, sacrifícios, sucessos e insucessos todos têm para contar. Não dá para descrever todas numa coluna de jornal, tal a variedade e quantidade por isso, seguem-se apenas quatro exemplos, bastante resumidos.

Perfis

Onei Rossato, 49 anos, nasceu em Tucunduva-RS. Agropecuarista, descendente de italianos, aportou em Humaitá em 1977. Foi pioneiro na rizicultura mecanizada no Amazonas. Atualmente, também se dedica à piscicultura em criadouro, tendo sido o primeiro a receber, no município, a licença ambiental para essa atividade.

Altemir Gallina, 52 anos, natural de Tuparendi-RS. Agricultor, descendente de italianos, saiu dos pampas em 1980, em direção à cidade de Dourados-MS, sempre atuando no setor agrícola. Em 1997, com a política de desenvolvimento da rizicultura na região sul do Amazonas, implementada pelo Governador Amazonino Mendes, Altemir seguiu para Humaitá com o propósito de participar desse novo celeiro agrícola que se abria. Foi bom enquanto durou. Na gestão da Marina Silva à frente do Ministério do Meio Ambiente, as atividades foram proibidas, alegando-se impacto ambiental, com o consequente abandono das plantações. Ele acredita que por trás de tudo estão os norte-americanos, que atuam na região por meio de diversas ONGs e missões “religiosas”. Está decepcionado e revoltado com a situação atual. E com razão.

Antônio Adolfo Rohleder, 58 anos, descendente de alemães e italianos, veio ao mundo em São Luiz Gonzaga-RS. Pisou o solo de Humaitá em 1980, procedente de São Borja. É o típico gaúcho da fronteira. Empresário, montou o posto de combustível Piquiá, no Km 500 da BR-319 (entre Manaus e Humaitá), que funcionou bem durante seis anos. Com a degradação da estrada e interrupção do tráfego, o negócio foi abandonado. Atuou nos garimpos de Roraima até serem proibidos pelo Collor em 1989. Nesse ano, em Humaitá, inaugurou a “Casa de Carnes Tchê”, que evoluiu para “Supermercado Tchê”, hoje o mais movimentado da cidade. Ao longo dos anos, contraiu 27 malárias, tratadas em Manaus. Durante certo tempo, ele e mais seis irmãos atuaram na Região Amazônica, sendo que alguns não se adaptaram e retornaram aos pampas, ficando somente três na cidade. Montaram um total de três postos de combustível e algumas fazendas; empreendimentos desativados com o término do tráfego em direção a Manaus. Antônio visita o sul com certa frequência e o que mais sente é a falta dos eventos tradicionalistas gaúchos.

Lauri Auler, 60 anos, gaúcho alemão nascido acidentalmente em Chapecó-SC, chegou em Humaitá no ano de 1977, onde trabalhou inicialmente na agricultura. Enfrentou todos os infortúnios dos pioneiros, como doenças e falta de infraestrutura. Perdeu as contas de quantas malárias contraiu; para sobreviver, a alimentação era à base de macaxeira (mandioca) com carne de animais silvestres, como anta, porco-do-mato, paca, jacaré e até onça; na falta de erva-mate, tomava-se chá-mate; não havia mercados nem geladeiras. Conta Lauri que sua mãe, Leonilda, gaúcha de Taquara, chorou durante cinco anos, de tristeza e de saudades do sul. Olhando para o horizonte, emocionado, declara: “Saudade foi o que mais maltratou o gaúcho”. Em 1979 montou a primeira oficina de motosserras e, em 1984, a primeira mecânica para motocicletas. Lauri Auler é um grande contador de histórias e a esquina onde se localiza sua oficina/residência é o ponto de encontro para a rodada de chimarrão da gauchada local, ao cair das tardes.

Dessa pequena amostra, já se pode ter uma idéia sobre a importância, para a região Amazônica, da participação desses e de muitos outros, gaúchos anônimos, que já contribuíram e muito contribuirão para o desenvolvimento uma região de importância vital para nosso País.

*A autoria deste texto é de Benhur Luiz Maieron, nascido em Sobradinho (RS), que atualmente reside em Brasília, mas trabalhou durante 20 anos no estado do Amazonas. Maieron agradece “a valiosa colaboração de Orlando Bacelar Espig, gaúcho de Santa Maria”.

Travessia a seco
Por sugestão do deputado federal Cláudio Diaz (PSDB), o coordenador da bancada gaúcha, deputado Vieira da Cunha (PDT), encaminhou ofício à ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) solicitando providências para que a obra de travessia a seco entre as cidades do Rio Grande e São José do Norte (ponte ou túnel) seja incluída no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Direito à comida
A deputada petista Emília Fernandes anunciou que o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), vai instalar na próxima semana a comissão especial para analisar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do Senado que inclui a alimentação entre os direitos sociais previstos na Constituição.