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Tropa da Imprensa

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Nenhum filme brasileiro, em qualquer tempo, recebeu um décimo da atenção que a imprensa vem dedicando ao recém lançado Tropa de Elite. Em primeiro lugar isso ocorreu porque, antes mesmo de chegar às telas, o filme – que retrata o drama de um capitão do tenebroso Batalhão de Operações Especiais da PM do Rio de Janeiro que tenta arranjar alguém que o substitua na tarefa de matar traficantes – sofreu o maior processo de clonagem que se tem notícia no universo. Estima-se que um milhão de cópias piratas foram vendidas em todo o país, em menos de dois meses.

O segundo aspecto que fez os jornais derramarem rios de tinta em debates intermináveis sobre o filme do jovem cineasta José Padilha, de apenas 40 anos, foi o fato de que, na exibição em pré-estréia, no Rio de Janeiro, pessoas terem aplaudido as cenas em que o capitão Nascimento, magnificamente interpretado por Wagner Moura, tortura soldados do tráfico. A partir desse fato, contestado por Padilha em entrevista ao programa Roda-Viva, começou o justiçamento do filme pelas jamais desativadas patrulhas ideológicas, que colocaram um rótulo de “fascista” na obra de ficção.

Assim, o diretor passou a gastar mais tempo em defender-se de acusações do que a falar sobre seu trabalho, que é fantástico. Há quem diga, agora, depois que o filme arrecadou uma fortuna no seu primeiro final de semana em exibição, que Tropa de Elite vai superar em público o também magistral Cidade de Deus. Mas nem uma notícia como essa consegue estancar as discussões sobre uma hipotética simpatia, insinuada em certos textos jornalísticos, do diretor pelos métodos sanguinários do Bope.

Aproveito o gancho de Tropa de Elite para tentar entender a reação rancorosa da imprensa diante de produtos culturais bem sucedidos. Entre centenas de reportagens e artigos sobre o filme, ainda não vi nenhum que trate concretamente da obra de arte. Ou seja, não vi ninguém escrevendo sobre o fato de o filme ter um belo roteiro, que se fecha ao final, sem deixar postas soltas. Também não encontrei quem elogiasse os diálogos afiadísssimos, tão marcantes que vários deles já se transformarem em expressões usadas no dia-a-dia dos cariocas, como “perdeu, perdeu”, ou “bota na conta do papa”. Também pouco se fala sobre a trilha sonora, excelente, e sobre a montagem que dá ao filme uma dinâmica vertiginosa. A imprensa brasileira, em suma, não trata da obra cinematográfica. Está julgando e tentando condenar, com chavões, uma película. Ou, pior ainda, um personagem de ficção: o capitão Nascimento.

Creio que boa parte desse equívoco advém do fato de Padilha ter entregue a narração do filme ao capitão Nascimento. Assim, tudo que é contado ao espectador vem filtrado pela ótica truculenta de quem se diz combatente em uma guerra urbana. Paradoxalmente, a platéia acaba sentindo certa simpatia pelo capitão já que ele é um ser em crise, que deseja abandonar a tropa para salvar seu casamento à beira do rompimento e para poder criar seu filho recém nascido. Padilha foi muito ousado ao dar voz aos policiais, que tradicionalmente nos são apresentados – em livros e filmes brasileiros – apenas como vilões.

Algo que também me chama a atenção no debate midiático sobre o filme é a suposta “surpresa” de alguns com a selvageria dos integrantes do Bope. Ora, quem lê jornais, acompanha, já há muito tempo, a sucessão de denúncias de violências e torturas praticadas por policiais militares em todos os Estados brasileiros. No Rio, fotógrafos de jornais já flagraram fuzilamentos de traficantes ou suspeitos por PMs. Não há nada de novo aí. O que deveria nos surpreender é o fato de que a questão da violência urbana nunca foi enfrentada para valer tanto pelo Estado quanto pela sociedade brasileira.

Deliberadamente ou não, Tropa de Elite força-nos mais uma vez a essa reflexão. Como, aliás, ocorreu ainda há pouco com o caso do menino arrastado por ruas do rio preso a um automóvel. Lembro que, naquela ocasião, um jornal de grande tiragem deu uma manchete dizendo que tínhamos passado do tolerável. Porém, de lá para cá, dia-a-dia, continuam a se reproduzir os episódios de barbárie. O mais trágico é que, passado o debate sobre o filme, na certa continuemos sem discutir com profundidade aquele que é talvez o maior desafio desta nação: como fazer para estancar o morticínio diário de centenas de brasileiros.

Edgar Lisboa é jornalista