22 de fevereiro de 2019
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Venezuela: Maduro e Guaidó foram se queixar para o bispo. O Papa entra em cena

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José Antônio Severo

O Papa Francisco vai ser o árbitro do conflito na Venezuela. Depois de tentar todos os tipos e instâncias de mediação, incluindo os órgãos pan-americanos, como a OEA, recursos a grupos formais e informais de negociadores, como o Grupo de Lima (integrado pelo Brasil) ou a comissão mista de latino-americanos e europeus, que se reuniu nesta quinta-feira em Montevidéu, finalmente parece que os dois lados aceitaram a intervenção do Santo Padre. Como se dizia antigamente, se não conseguir uma solução, “vá se queixar ao bispo”. Foi o que fizeram Nicolás Maduro, primeiro, e na noite de quinta o autoproclamado presidente Juan Guaidó. Assim, estão cumpridas as exigências do Pontífice para atuar na crise.

Até a tarde do dia 7 de fevereiro o conflito na Venezuela estava nas mãos da Oposição. Maduro pediu a arbitragem do Papa. A contraproposta de Francisco foi que a totalidade das correntes políticas que antagonizam o presidente-ditador fizessem um pedido formal de mediação.

Essa possibilidade foi um balde de água fria no ímpeto da Oposição, atualmente fortalecida politicamente com o reconhecimento internacional. Por outro lado, bota o ditador na obrigação de fazer o que Sua Santidade determinar, inclusive deixar o governo, talvez temporariamente, até que se encontre uma solução definitiva.

Com isto seria possível encontrar uma saída honrosa para o presidente Nicolás Maduro. Por outro lado, o Pontífice teria de conter à aguerrida oposição. Com os apoios externos, há muita gente na Venezuela esperando que o governo de Juan Guaidó adquira as condições formais de beligerante e possa importar legalmente armas e requisitar apoio militar de potências “amigas”. Isto é sonho. A solução desse impasse será pacífica.

O exemplo a ser seguido é a mediação do Papa João Paulo II na crise entre Argentina e Chile na disputa pela soberania no Canal de Beagle. Naquela época, em 1978, os dois países estavam à beira de uma guerra de verdade, ambos armados com equipamentos modernos, prontos para o conflito. O Papa arbitrou irmãmente, dando uma parte para cada um, e os dois, ambos descontentes, tiveram de engolir o veredito. Até hoje reina a paz nos confins da América do Sul.

Francisco terá o mesmo papel. Os dissidentes venezuelanos não terão como se negar a um julgamento do Papa. Sua Santidade, por seu turno, sendo um sul-americano e profundo conhecedor dos ânimos nesta parte do mundo, vai criar as condições para que os dois lados resolvam com honra a briga em que se meteram. Maduro terá de ceder. Também Guaidó será obrigado a recuar. Com isto, uma terceira via entrará em cena, como o algodão entre cristais. Assim se resolveram até hoje os grandes impasses políticos na América do Sul.

Uma guerra civil aberta na Venezuela é impensável. Seu custo financeiro é demasiado para as forças em conflito. Os Estados Unidos ameaçaram entregar ao governo de Guaidó o dinheiro que deve à Venezuela, por importações de petróleo que estão depositadas em seus bancos. É blefe. Da mesma forma, Maduro não tem como se sustentar muito tempo no grau de isolamento em que se encontra. A solução será diplomática e numa composição política entre as forças internas desse país.

Também uma guerra externa é impossível. Não há como a Venezuela agredir um de seus vizinhos, para criar um “casus belii”. Só faltava isto para um comoção internacional e Maduro ser abandonado por seus últimos apoios. Rússia e China, potências relevantes por seu poder de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas, teriam de recuar, como foi no caso da invasão do Kuwait por Sedan Hussein do Iraque. Esses países apoiam o governo de Maduro como forma de incomodar os Estados Unidos. Nunca iriam à guerra por este motivo.

Seja como for, o Brasil pode ficar tranquilo que não terá guerra em suas fronteiras. Seja como for, a marcha da insensatez será detida. O Papa Francisco é o denominador comum. Ninguém duvida.

Blog Edgar Lisboa/José Antônio Severo