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Venezuela pós Maduro será importadora de bens de capital

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José Antônio Severo

O tiro saiu pela culatra. Quando a Venezuela sair da atual crise, o setor público estará de tal forma destruído, que jamais poderá ter o monopólio político e econômico que exerceu nos últimos 100 anos. Este será o resultado da aventura bolivariana do ditador Hugo Chávez e seu sucessor, o sindicalista Nicolás Maduro: o sonho de converter a Venezuela num país socialista à moda antiga será sepultado por um capitalismo inevitável. O tiro saiu pela culatra

Essa expressão de caçadores metaforizada como uma vitória da caça sobre o caçador expressa um erro irreparável. Ao disparar sua espingarda, em vez de o propelente, a pólvora, jogar a carga sobre o alvo, ela explode na culatra, na cara do atirador, que invariavelmente, é gravemente atingido, quando não morto. Parece ser o caso da Venezuela dos bolivarianos.

Em 20 anos de gestão do próprio coronel e de seu sucessor Maduro, o modelo de país que vai emergir ao final do grande desastre será exatamente o contrário do sonho bolivariano. Em vez de consolidar o poder do estado em cima dos recursos financeiros da extração e exportação de óleo cru, no final a tendência é que desta crise gigantesca emerja um país diversificado, privatizado, com uma economia plural, no modelo das demais economias sul-americanas. Atualmente a Venezuela é último país da região a assentar sua vida sobre um único produto, no modelo dos demais produtores de petróleo do Oriente Médio e África, todos sob a dependência do chamado ouro negro.

Até os anos 1960, desde o período de 1870 até o final da Segunda Guerra Mundial, o padrão dos países da América do Sul era de monocultura de exportação. No Brasil o café representava 80% das cambiais; na Argentina, o tripé carne congelada, trigo e lã; no Chile, o cobre; no Peru, prata e cobre; A Colômbia, café e carvão, e assim por diante.

Tudo mudou. Hoje o subcontinente oferece outro cenário. No Brasil, naqueles 20 por centos residuais havia minério de ferro, algodão, carne congelada do Rio Grande do Sul, cana de açúcar e outros produtos tradicionais. Mas quem segurava o país era o cafezinho dos americanos (a Europa bastecia-se na Colômbia).

Hoje a pauta de exportações do Brasil tem mais de 2.000 produtos e serviços na pauta de exportações, a imensa maioria industrializados. O maior de todos a soja, mal chega aos 20 por cento com toda sua cadeia, que vai desde a soja em grão até os mais sofisticados óleos; O general Café, como se dizia nos anos 50, duplicou sua produção sobre aqueles tempos, triplicou suas ofertas (verde, solúvel, moído e torrado) e nem chega aos dois por cento.

O Brasil, assim como os demais países sul-americanos, evoluiu e diversificou suas economias, embora todos mantenham ativas e vivas suas grandes âncoras, como soja, carne, cobre e café colombiano, etc., mas a Venezuela não

A Venezuela mantém a mesma economia inaugurada em 1921, quando o então presidente (ditador) Juan Vicente Gomez fechou negócio com os norte-americanos para exportar petróleo. Desde então é a mesma coisa.

Esse modelo, que se mantém nos outros grandes exportadores de petróleo, foi ao chão inexplicavelmente. Um modelo que resiste até em países destroçados por guerras, como o Iraque, sucumbiu na Venezuela. Uma vitória da gestão desastrada dos bolivarianos de Hugo Chávez. Destruíram aquela economia que, embora simplória, era forte e sólida. Com a derrocada, quando o País sair da crise, vão emergir novas forças econômicas e a Venezuela deixará de padecer da “Maldição do Petróleo”, título do livro do norte-americano Michael L. Ross. Nessa obra, ele demonstra que os países produtores de petróleo nesses períodos do século XX estagnaram, gerando apenas uma elite corrupta e um paternalismo exacerbado. Como da Venezuela, onde ninguém trabalha e o País não produz nem ovos nem leite para o café da manhã.

Por isto produtores e fornecedores dos países vizinhos estão de olho no desenvolvimento dessa crise. Quando acabar, vão se abrir negócios novos. Até então a Venezuela era grande importadora de produtos alimentícios e todos os demais itens, inclusive papel higiênico. Com a retomada, quem espera vender para o país que ressurgirá são os fabricantes de bens de capital e forneceres de matérias primas industriais e insumos para uma agricultura que deverá aparecer nas margens do rio Orinoco.

Blog Edgar Lisboa

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