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Os desafios de Teresa Cristina viajando em tempo de coronavírus

Voltando para casa em tempo de Covid-19

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Teresa Cristina Machado

Brasília faz 60 anos e minha relação com esta cidade, após 34 anos de convivência, leva-me a uma nova pergunta: o que é voltar para casa nos tempos atuais?

Nossa simpatia pelo nomadismo associada aos avanços tecnológicos e de transporte pegaram-nos espalhados pela Terra quando o mundo quase parou em consequência da pandemia do Covid-19. Os sistemas de saúde mundiais mostraram-se em diferentes estágios de fragilidade e governantes, definidores das nossas possibilidades e qualidades de vida e de morte também revelaram-se em diferentes fases de reflexão e capacidade de agir sobre o que deve ou não ser considerado e feito nesses casos dentro do conceito de civilização e de humanidade.

A realidade mostrou-nos que pessoas, longe de casa, não ficaram confortáveis ou tranquilas. Elas estão se mobilizando para voltar para casa.

Onde você estava quando se deu conta de que a situação era extrema e grave? E qual foi seu primeiro pensamento e reação?

Escrevo, para não esquecer o que passou pela minha cabeça e o que se sucedeu comigo, pode muito bem entrar para a lista de capítulos intensos e emocionantes da minha caminhada. Mas também, porque decidi que ao desejar saber como me comportaria neste momento e observar minhas reações e sentimentos, escrever novamente aparece como uma forma de diluir meus medos. Acho que dividindo com o teclado, deixo espaço na cabeça para preencher com registros que pretensiosamente acredito dominar melhor e assim vai indo…

Vou te buscar – Era 12 de março, eu estava no litoral gaúcho, em Capão da Canoa, aproveitando os raios de sol de despedida do verão e achando ainda que havia certo exagero no ar, quando minha irmã ligou de Porto Alegre anunciando que na segunda-feira iria lá me buscar e que eu ficaria na casa dela. Opa! Sinal amarelo! Liguei para minha sobrinha, que recém havia ganhado bebê e eu estava no sul para, na sequência, ir à Ibiraiaras conhecer a fofuxa e avisei: por precaução e segurança de vocês, suspendi a viagem, vou ficar em Porto Alegre e, de lá, volto para Brasília na data marcada. Talvez não vejamos mais aquele mundo de fevereiro se, de fato, todo este pandemônio servir para alguma coisa no contexto do que se entende com um pouco de reflexão, humildade e amor, por evolução humana.

Naquele instante, formaram-se questões como ir para a casa da minha irmã, ficar lá até quando, isto é uma guerra e nós temos família para estarmos unidos nesses momentos, mas não é para ficar todo mundo junto, não é para sair de casa é tudo muito novo, eu estou com medo, com coragem ou resolvida caso seja minha vez de saber qual a minha essência, o que sobrou desta passagem na Terra agora imprópria ao contato e à respiração normal? Ah, muitas perguntas. Mandei uma ordem. Chega de questionamentos, defina-se, um pesadelo por noite e vamos em frente!

Mas a pergunta da inquietude era que uma hora terei de “voltar”. E com ela vinham muitas outras, voltar para onde, de onde eu sou afinal, já estou na minha terra natal, mas minha casa, minha calopsita, minhas coisas estão em Brasília, onde vivo há 34 anos. Minhas irmãs, sempre mais práticas e assertivas, por instantes, me organizavam o pensamento com o que para elas estava muito claro. Como assim tuas coisas? Não tem coisas, tem a vida, só isto e vamos ficar perto até passar este momento de desconhecimento de tudo. Muito bem, mas minha sobrinha morando na Alemanha fazia uma das minhas irmãs declarar que agradecia por ela estar lá, pois os alemães são mais efetivos e ela tinha certeza de que a filha estava melhor do que nós. A filha também achava e não foi atrás de nada. Vai retomar as aulas online, agora, no final das férias de lá, como programado, sem estresse.

A pergunta voltar para casa começou a gerar mil respostas e outras tantas perguntas para mim diante deste episódio.

Quarentena em casa – Viajei para passar 15 dias no Rio Grande do Sul, já estava há 40 dias e as coisas piorando no Brasil e no mundo todo. Todo mundo aquartelado e eu também só que em casa alheia. Eu queria estar no meu canto, testar minhas reações diante deste momento único também. Mas de repente, queria estar onde estava. Aí decidi. Tinha desmarcado a passagem em voo direto de Porto Alegre para Brasília. Fui remarcar e diretos já não existiam. Vamos lá encarar o que há de menos impactante para chegar em Brasília. Um voo saindo de Porto Alegre às 8h20, que chegaria às 10h em Guarulhos, o lugar onde ninguém quer estar parado nesta altura. Mas às 11h sairia o voo de Guarulhos para Brasília e, até às 13h, eu estaria em casa, faxina geral e minha fortaleza estaria pronta para me abrigar.

Aeroportos vazios

Às 7h30 cheguei no aeroporto. Às 7h45, minha irmã liga dizendo que viu no site que o voo estava atrasado. Ai, caramba, como assim, só pode estar errado, estamos na fila para o embarque, as malas já estão na aeronave e aqui parece tudo tranquilo. Vai ver que está errado no site então, diz ela. Mas assim que falou, olhei em volta e na janela e tudo se alvoroçava. Pensei, o site está certo e perdi o voo Guarulhos-Brasília e mais, um dia dentro do aeroporto de São Paulo, aha já estou com o Covid-19 desde agora. As afirmações das minhas irmãs vinham e iam e eu me certificando que tinha tomado a decisão mais absurda sobre a minha própria vida. Mas não eras tu quem queria saber como te sentirias, pois então comece a observar-se. A lei da causa e consequência do Caibalion está em pleno curso dentro de ti também, perceba. Eu me dava ordens.

Ar de mudança – Respirei, não muito fundo, e pensei, se não tem solução, solucionado está. Olhei em volta, pessoas como eu de olho arregalado, tensas, de máscara, malas na mão. O atendente chama e diz que o voo não vai sair, não tem tripulação, está vindo de São Paulo para nos buscar. Foi quando achei que esta pandemia estava sendo um remédio para a humanidade. Um senhor com jeito de piloto, viajaria no voo como passageiro, e mais duas moças que pareciam comissárias, começaram a se mexer. Aproximaram-se e ligavam sugerindo uma solução entre eles para levaram a aeronave que estava no pátio até São Paulo conosco dentro. Fala com um, fala com outro. A resposta foi não. Teríamos que esperar a tripulação alocada para a missão.

Comecei de novo a pensar, voltar para onde, voltar por que, voltar, voltar, que verbo é este, o que significa mesmo? Eu já tinha ouvido falar de terroir, mas assim por cima, coisa de vinho. É o lugar onde a vida dos organismos, que estão na terra, potencializam-se, porque estão adequados. Mas será que isto se harmoniza com as pessoas também? Será que todos os poucos ou muitos que estão neste salão estão procurando seu terroir hoje frente a este momento?

Pronto. Eu tinha uma pergunta. A minha curiosidade natural que me fez cursar jornalismo e os passageiros de um ou dois aviões inteiros para fazer perguntas, afinal, todo mundo estava com tempo e inseguro mesmo, talvez querendo falar sem saber como começar. Então começo eu. Pouca coisa deve ser mais instigante e intrigante do que pensar sobre o motivo impulsionador das pessoas que estão num salão de embarque de aeroporto. E nos dias atuais, então? Acho que eu sempre quis saber isto. E ali estava a oportunidade.

Se não quer saber, não pergunte – Eu perdi o voo de Guarulhos para Brasília e, entre medo e curiosidade, por ficar de 12h até às 20h em São Paulo ouvi as razões de movimento de 10 pessoas. Sentada em uma poltrona lavada com meu álcool em gel e quase sem me mexer, naquele aeroporto vazio em plena quarta-feira, fui fazendo minha pergunta a quem estava ao alcance da minha voz.

Em Porto Alegre, já tinha ouvido alguns passageiros. Primeiro, um choque deixou minha desconexão de São Paulo sem qualquer significado a não ser a possibilidade do Corona me pegar desprevenida ou nem tanto. Uma moça, desolada, dizia para o atendente: se não tem outro jeito eu não vou participar, vou chegar depois. E tentava não se desesperar. Ela estava indo para o enterro da própria mãe em Belo Horizonte e como as práticas fúnebres de despedida já estavam alteradas para um tempo menor, ao perder a conexão em Guarulhos, pelo atraso na saída de Porto Alegre, ela não chegaria em tempo de estar na cerimônia com os familiares. Ela voava para a casa dos pais.

Este, sem dúvida, pareceu-me o maior drama que encontraria naquele percurso que ainda nem começara.

Ao meu lado, conservando o bom humor, uma senhora avisava o esposo no município português de Setúbal que estava atrasada para chegar em São Paulo, mas daria tempo de pegar a conexão para Portugal e chegar na cidade do Porto. De lá, ele a apanharia e levaria para a quarentena de 15 dias. Ela voava para perto do marido e do filho, que também já tinha cidadania portuguesa, diferente dela que é uma cidadã de São Leopoldo (RS) ainda.

Entre ficar no Brasil e manter a rotina de estudos para um Enem que já nem data confirmada tem e fazer companhia para o namorado na Austrália, uma menina de 20 anos de idade, estava feliz que, mesmo com o atraso, sua conexão internacional estava assegurada. Ele não está bem sozinho de quarentena, então eu vou, relatou alegre com sua certeza de ser útil a alguém naquele momento.

De repente, um casal de peruanos me olha e a senhora pergunta: que dia vamos chegar em São Paulo? Ela não havia entendido o que o atendente falara ao microfone sobre o atraso e tinham que estar na Embaixada do Peru às 16h daquela quarta-feira para tentar um voo de repatrição. Vieram visitar a filha e queriam retornar à casa deles, ao terroir deles. E ia dar tempo de fazer esta tentativa, espero que com sucesso para eles.

Dia estranhíssimo em Guarulhos – Chegamos em Guarulhos finalmente, despedidas de longe dos contatos recém feitos, me dou conta de que aqueles telões que marcam os horários e portões de decolagem dos voos e viviam girando, fazendo os olhos da gente rodarem feito máquina de cassino, estavam parados. Não havia mais de oito voos anunciados e havia nenhum barulho de aeronave no maior aeroporto da América Latina. Assustador. Cadeiras e espaços sempre superlotados e barulhentos pelo zumzumzum de pessoas e correrias de um portão ao outro estavam subpovoados neste dia.

Olhei meu voo, realmente, só às 20h, com sorte, porque o atendente fez outro check-in para mim, mesmo tendo dito, primeiramente, que não havia lugar e talvez eu não saísse de São Paulo naquela quarta-feira, uma vez que perdi o voo das 11h. O da noite estava lotado. Passei álcool em gel em uma poltrona, ninguém respirava perto de mim a um raio de 5 metros. Isto em Guarulhos dia de semana, à tarde!

Gerente de cafeteria diz que só viu o aeroporto daquele jeito em 2001 quando do atentado às torres gêmeas em Nova Iorque

Ajustei a máscara, peguei o livro que estava lendo, achei que ficaria mais leve esta espera se lesse o livro tomando um cafezinho. Achei um dos raros restaurantes abertos e pedi um café em copo descartável. O gerente mesmo atendia preparava o café e cobrava. Perguntei se ele já havia visto Guarulhos assim e o que fizeram com as salas vip do aeroporto. Ele me contou que em 20 anos de Guarulhos só vira o aeroporto daquele jeito em 2001 quando do atentado às torres gêmeas em Nova Iorque. As pessoas não viajaram durante uma semana, com receio de terrorismo na leitura dele. As salas vip fecharam, me disse e continuou, ontem, veio uma amiga que trabalha em uma delas para despedir-se. Ela foi demitida. Foi para casa.

Havia deixado mala, mochila com computador, tudo lá solto no meio do aeroporto de Guarulhos para marcar o lugar lavado de álcool e porque não queria ficar mantendo contato com tudo que era objeto e andando pelo aeroporto. Ecoava o que minhas irmãs falaram, não tem coisa, tem vida. Levei a sério e não é que estava tudo lá do jeitinho que eu deixei? Que mudança! E vou marcando, já vi duas situações positivas e inusitadas.

Homo Deus e o Pós-Humanismo – Sentei e retomei à página 205 do Homo Deus, de Yuval Noah Harari. E lá está para me colocar em reflexão entre goles, coisa boa! “No Século XXI, é improvável que os dogmas humanistas sejam substituídos por teorias puramente científicas. No entanto, a aliança que conecta ciência e humanismo pode muito bem desmoronar e dar lugar um tipo muito diferente de trato, entre a ciência e alguma nova religião pós-humanista”. Aiaiai, sobre o que mesmo ele deve estar falando? O que pode substituir a religião no conceito que a temos hoje, que fatos deflagariam isto, será que ele falava, lá em 2016, quando escreveu este livro, ao que estamos assistindo hoje aqui desta poltrona do aeroporto assustadoramente vazio de Guarulhos?

Olhar perdido naqueles janelões, dou-me conta do pátio lotado de aeronaves que não vão se mexer e sinto uma lágrima correr, medo, pena, gratidão por ser contemporânea desses dias de transformação e eu voltando para casa? Por que estou me submetendo a esta saga cheia de medos para chegar onde acho que é minha casa? Ai, muita coisa para pensar e esta moça que resolveu reabastecer a bateria do celular a 10 cadeiras de mim precisava ser tão grosseira? Ela ouve a música que ela quer num volume altíssimo sem saber se tenho o mesmo gosto musical que ela ou se estou querendo ouvir alguma coisa além daquele silêncio? Os japoneses a fuzilariam com os olhos, mas aqui! Olho em volta, meio indignada e querendo entender que a moça poderia estar angustiada e com medo. Deparo com um rapaz sacudindo a cabeça também negando-se a acreditar no que via… e ouvia.

Ele vinha da França e aguardava o voo que sairia para Belo Horizonte. Estudante de ciência política na Universidade da Sorbonne, não quis ficar expondo-se ao Covid-19 em terras alheias, apesar de ter cidadania francesa em razão da filiação. Decidiu voltar para casa, a casa dos pais. “Lá, tem um quartinho, no fundo do pátio, onde vou ficar em quarentena por 15 dias. Tem internet e minhas aulas continuarão online, então eu podia vir e ficar com minha família, né?” questionou-me só para ampliar o diálogo, porque estava decidido de que tinha tomado a medida mais certa para um tempo de pandemia.

Este rapaz embarcou e olhei para a frente. Tinha uma senhora chorando. Ela me viu e aproximou-se. Desculpa, estou muito emocionada ligando para meu irmão em Goiânia (GO) para que não vá para Brasília me buscar antes de eu dizer que embarquei, lamentou-se e continuou contando a história dela que estava há quase 48 horas viajando e sem dormir. Enfermeira em Goiânia, ela vinha de São Francisco (EUA) onde tinha ido há um mês para acompanhar o parto da neta, diante da impossibilidade dos pais dela estarem lá. Aproveitou as férias e foi fazer companhia à futura mamãe que teve várias complicações no parto correndo risco de morte. Quando estavam todos em casa a pandemia começou a ganhar corpo e corpos nos Estados Unidos e ela tinha que vir embora. Porém, não conseguia, porque o aeroporto ia fechar. Estava uma bomba emocional quando aterrissou no Brasil. Eu vi a hora que ia perder minha neta, não voltaria para casa e perderia também meu trabalho, falava chorando.

Fui ver se dava para comer algo que não precisasse pegar com a mão e que tivesse talher descartável e deixei minhas coisas soltas lá de novo. Uma moça disse que era para eu ir tranquila, ela olharia para mim. Pensei, o que faz o medo! Na volta, perguntei para onde ela estava indo e me contou que era do interior do Pará e tinha ido acompanhar uma amiga no tratamento de um aneurisma em Curitiba (PR). A amiga fez o procedimento da nova fase do tratamento, mas não reagiu bem e veio a óbito, lá no Paraná. Ela, que nunca tinha saído de sua cidade, nunca tinha andado de avião, de repente, viu-se nesta situação. E com o agravante de que o governo do estado do Pará informou-lhe não haver como levar o corpo da amiga para os funerais em razão do momento e que ela teria que providenciar tudo para ser feito lá no Paraná mesmo. Com toda esta carga emocional, ela voltava com a mala cheia de novas, inesperadas e tristes vivências para a casa dela atravessando o Brasil. Disse que ainda não tinha processado tudo o que viveu direito. Pudera, ela foi extremamente desafiada, só queria chegar na casa dela para colocar um pouco de ordem nos pensamentos.

Ao final da tarde, o aeroporto de Guarulhos começou a apresentar um movimento diferente. Estavam chegando voos internacionais.

Uma moça sentou-se perto de mim. Questionei de onde vinha. Contou-me que voltava para casa em Santa Catarina, após quase quatro anos morando no Suriname, atuando como voluntária em uma comunidade religiosa. Era Testemunha de Jeová. Relatou o quando gostou da experiência, mas que o projeto dela tinha sido concluído e precisava trabalhar. Resolveu voltar para casa no Brasil, porque estava achando estranho o baixíssimo volume de casos de Covid-19 detectados no Suriname já no início de abril.

Na minha diagonal, duas senhoras conversavam entre animadas e tensas por estarem voltando para o interior do Rio Grande do Sul após uma viagem de turismo à África do Sul. Fizeram o passeio e na hora de retornar, com mais 300 brasileiros, ficaram sem poder sair de Johanesburgo, dependendo de ações do Itamaraty para o repatriamento. Contaram que o aeroporto havia sido fechado e a muito custo o Brasil conseguiu um voo, mas ainda ficaram brasileiros lá sem poder embarcar. Eles haviam adquirido passagens de outras companhias quem as trouxe não privilegiou aqueles passageiros que não puderam complementar o valor da passagem. Não identificarei as companhias, como não nomeei os passageiros, pois a proposta não é criar polêmicas, mas relatar momento específico de pessoas querendo voltar para casa e o que representa voltar pra casa no meio de um inimigo invisível que nos ataca no mundo inteiro.

Vai mas não vai – Chega o horário do voo para Brasília, que seria um segundo hub para muitos que seguiriam rumo ao norte do Brasil, Roraima e Pará especialmente.

Entramos na aeronave. Todos acomodados, álcool em gel, que cada um carregava como parte do kit sobrevivência, com luvas e máscaras, passado nas poltronas, guardas e mesinhas. O avião começa a taxiar e o piloto anuncia, “vamos ter que retornar ao finger, há uma comunicação desconhecida no painel e a técnica deve avaliar. Seremos breves, porque esta avaliação vai demorar, mas não há problema em trocar de aeronaves, pois o que mais tem no pátio de Guarulhos são aeronaves paradas”. Que comunicação triste e preocupante por tudo. De fato não demoramos na substituição e levantamos voo finalmente, rumo à quarentena e ao isolamento social que cada um de nós deveria fazer a partir do momento em que aterrissássemos no destino por 15 dias.

A casa, o lugar a que pertencemos – Desde então, entre minhas reflexões de autoconhecimento desses dias de transformação, ainda me desconcerta um pouco a expressão voltar para casa. Mas algumas conclusões atenuam minha inquietude. Voltar para casa é chegar no lugar onde entendemos que somos um pedaço, que pertencemos. A nossa casa é onde, por alguma razão, às vezes não clara, nos potencializamos, nos encontramos com faíscas da nossa essência, onde entendemos que somos úteis e que, mesmo quando nada está sob controle, acreditamos que temos algum controle. Um controle que seja sobre nós mesmos, que seja para mudarmos completamente a nossa percepção do mundo influenciá-lo ou ser influenciado por aquele ambiente com nossa licença. Onde, como os vinhos, ganhamos e recuperamos valor para nós mesmos. E nesta viagem, com todos os depoimentos colhidos, acho que foi quando pude me conscientizar, na prática, sobre a frase do filósofo espanhol Ortega Y Gasset, “eu sou eu e minha circunstância”. E nesta circunstância, estou achando que devia estar mesmo aqui, na minha casa, em Brasília, nos seus 60 anos.

Blog Edgar Lisboa

Um Comentário

  1. Maria Amalia Machado

    Ótimo texto da Teresa!!
    Coragem e curiosidade ela tem bastante!
    Tempos de novas perguntas!